Há muitos anos parei de forçar minha natureza e tentar me adaptar aos gostos de amigos e familiares sobre o carnaval. Já saí em bloco, já tentei ir atrás do trio, porém nunca me senti à vontade no ambiente momesco. Mas depois que passei a respeitar meu gosto, sempre aproveitei o feriadão para passear durante o dia e, à noite, me refugiar em casa.
Carnaval virou algo ligado apenas à minha vida profissional. Quando fui trabalhar na assessoria de comunicação da Prefeitura de Ilhéus, em 2005, só ia à Avenida para fazer matérias. Gostava de pegar as pautas de serviços oferecidos durante a festa, pois terminava tudo cedo. Eu morava próximo ao circuito e antes das 22 horas estava no conforto do meu lar.
Em 2009, fui trabalhar na Prefeitura de Itacaré. Lá, eu não tinha a “blindagem” do camarote da imprensa, a qual estava acostumada na Prefeitura de Ilhéus. Também não iria dormir a menos de 200 metros do circuito da festa. A cidade ficava a mais de 70 quilômetros da minha aconchegante e segura caminha. Para pernoitar na cidade, dividi um apartamento liliputiano de dois quartos com a família do meu então chefe. Ele não pôde comparecer à abertura da festa, mas sua esposa não apenas fez questão de aproveitar a folia na cidade praiana, mas também entupiu o recinto com seus parentes e aderentes.
Quando cheguei ao apartamento, minha primeira impressão foi de desespero. Não sei como coube tanta gente naquele cubículo. Eu não consegui nem contar quantos eram, mas haviam mais de 12 pessoas, ocupando uns 20 metros quadrados e dividindo um único banheiro. Parecia uma cadeia. Ao menos tiveram a consideração de deixar um quarto separado para que eu e Felipe, meu marido, dormíssemos com privacidade. Afinal, das pessoas presentes, eu só conhecia, e muito superficialmente, a esposa do meu chefe.
Após conferir o carnaval, pegar algumas informações e tirar fotos, nós voltamos ao apartamento, que estava calmo e praticamente vazio. Ainda antes da meia-noite, tomamos banho e fomos dormir. Quando já estava deitada, fui beber água e esqueci-me de trancar a porta do quarto. Desconfortavelmente, tentei relaxar naquele ambiente estranho para, logo cedo, tomar meu ônibus de volta para casa, fazer a matéria e aproveitar o feriado prolongado.
Pouco antes dos primeiros raios solares invadirem, fui acordada pelo barulho do povo chegando ao apartamento. Falavam e riam alto, derrubavam e arrastavam coisas. Ouvi uma sequência de descargas do banheiro e em minutos, o silêncio voltou. Quando pensei em voltar ao meu soninho, a porta se abriu. Ergui minha cabeça e, sonolenta, deparei-me com uma figura obesa, careca, vestindo apenas uma cueca. Apesar do espanto, tentei ser educada:
- Pois não?
O cara não me respondeu e se jogou na minha cama, deitando ao lado do meu marido. Eu fiquei sem reação, embasbacada com a cena surreal. Rapaz, o ser bestial mal deitou e começou a roncar. Sacudi meu amado com força para tirá-lo do sono mais pesado que a criatura grotesca. Ele ainda quis acordar o cara para tirar satisfação, mas eu estava com tanto asco daquela situação que a única coisa que eu queria era sair dali o mais rápido possível.
Para chegar até o banheiro, tivemos que pular umas oito pessoas deitadas pelo chão. Tinha gente dormindo até ao lado do fogão. Juntamos nossos pertences e a única coisa que sobrava era o lençol onde o ogro dormia.
- Deixa isso aí! Vamos embora logo!
- E eu vou deixar o nosso lençol aqui?
Felipe soltou os elásticos do lençol e tentou puxá-lo. Na realidade, a intenção dele era retribuir a falta de educação, derrubando o indivíduo no chão. Mas o cara era muito pesado e o lençol ficou preso embaixo dele.
- Não sai. Deixa isso aí. Vamos logo! – supliquei mais uma vez.
Meu marido tentou mais uma vez fazer o homem cair da cama. Sem sucesso, a alternativa foi tentar rolar aquele porco suarento e roncador para o outro lado. O indivíduo era tão gordo que tivemos que unir nossas forças para deslocá-lo. Com muito nojo, conseguimos deslocar o ser asqueroso e soltar nosso lençol.
Para sair do local, pulamos mais umas 10 pessoas até a porta. Depois daquele momento em que tivemos nossa dignidade violada, o nosso trunfo foi resgatar nosso lençol.















