segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O horror!

Há muitos anos parei de forçar minha natureza e tentar me adaptar aos gostos de amigos e familiares sobre o carnaval. Já saí em bloco, já tentei ir atrás do trio, porém nunca me senti à vontade no ambiente momesco. Mas depois que passei a respeitar meu gosto, sempre aproveitei o feriadão para passear durante o dia e, à noite, me refugiar em casa. 

Carnaval virou algo ligado apenas à minha vida profissional. Quando fui trabalhar na assessoria de comunicação da Prefeitura de Ilhéus, em 2005, só ia à Avenida para fazer matérias. Gostava de pegar as pautas de serviços oferecidos durante a festa, pois terminava tudo cedo. Eu morava próximo ao circuito e antes das 22 horas estava no conforto do meu lar. 

Em 2009, fui trabalhar na Prefeitura de Itacaré. Lá, eu não tinha a “blindagem” do camarote da imprensa, a qual estava acostumada na Prefeitura de Ilhéus. Também não iria dormir a menos de 200 metros do circuito da festa. A cidade ficava a mais de 70 quilômetros da minha aconchegante e segura caminha. Para pernoitar na cidade, dividi um apartamento liliputiano de dois quartos com a família do meu então chefe. Ele não pôde comparecer à abertura da festa, mas sua esposa não apenas fez questão de aproveitar a folia na cidade praiana, mas também entupiu o recinto com seus parentes e aderentes. 

Quando cheguei ao apartamento, minha primeira impressão foi de desespero. Não sei como coube tanta gente naquele cubículo. Eu não consegui nem contar quantos eram, mas haviam mais de 12 pessoas, ocupando uns 20 metros quadrados e dividindo um único banheiro. Parecia uma cadeia. Ao menos tiveram a consideração de deixar um quarto separado para que eu e Felipe, meu marido, dormíssemos com privacidade. Afinal, das pessoas presentes, eu só conhecia, e muito superficialmente, a esposa do meu chefe. 

Após conferir o carnaval, pegar algumas informações e tirar fotos, nós voltamos ao apartamento, que estava calmo e praticamente vazio. Ainda antes da meia-noite, tomamos banho e fomos dormir. Quando já estava deitada, fui beber água e esqueci-me de trancar a porta do quarto. Desconfortavelmente, tentei relaxar naquele ambiente estranho para, logo cedo, tomar meu ônibus de volta para casa, fazer a matéria e aproveitar o feriado prolongado. 

Pouco antes dos primeiros raios solares invadirem, fui acordada pelo barulho do povo chegando ao apartamento. Falavam e riam alto, derrubavam e arrastavam coisas. Ouvi uma sequência de descargas do banheiro e em minutos, o silêncio voltou. Quando pensei em voltar ao meu soninho, a porta se abriu. Ergui minha cabeça e, sonolenta, deparei-me com uma figura obesa, careca, vestindo apenas uma cueca. Apesar do espanto, tentei ser educada: 

- Pois não? 

O cara não me respondeu e se jogou na minha cama, deitando ao lado do meu marido. Eu fiquei sem reação, embasbacada com a cena surreal. Rapaz, o ser bestial mal deitou e começou a roncar. Sacudi meu amado com força para tirá-lo do sono mais pesado que a criatura grotesca. Ele ainda quis acordar o cara para tirar satisfação, mas eu estava com tanto asco daquela situação que a única coisa que eu queria era sair dali o mais rápido possível. 

Para chegar até o banheiro, tivemos que pular umas oito pessoas deitadas pelo chão. Tinha gente dormindo até ao lado do fogão. Juntamos nossos pertences e a única coisa que sobrava era o lençol onde o ogro dormia. 

- Deixa isso aí! Vamos embora logo! 

- E eu vou deixar o nosso lençol aqui? 

Felipe soltou os elásticos do lençol e tentou puxá-lo. Na realidade, a intenção dele era retribuir a falta de educação, derrubando o indivíduo no chão. Mas o cara era muito pesado e o lençol ficou preso embaixo dele. 

- Não sai. Deixa isso aí. Vamos logo! – supliquei mais uma vez. 

Meu marido tentou mais uma vez fazer o homem cair da cama. Sem sucesso, a alternativa foi tentar rolar aquele porco suarento e roncador para o outro lado. O indivíduo era tão gordo que tivemos que unir nossas forças para deslocá-lo. Com muito nojo, conseguimos deslocar o ser asqueroso e soltar nosso lençol. 

Para sair do local, pulamos mais umas 10 pessoas até a porta. Depois daquele momento em que tivemos nossa dignidade violada, o nosso trunfo foi resgatar nosso lençol.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Qual a resposta?

Há dois dias, uma dupla de meninas tocou a campainha já no final da tarde. A mais velha aparentava ter uns 10 anos e, a mais nova, uns 8. Eram morenas, cabelos viúvos de pente, escuros e escorridos. Estavam descalças, sujas, mas não maltrapilhas. Quando abri a porta, já avançaram com o corpo para espiar o interior da casa. Coloquei o corpo na frente e, antes que eu perguntasse o que queriam, a maior foi imperativa: 

- Ei, me dê uma boneca! 

- Ei, me dê um brinquedo! – completou a segunda. 

Eu, que já tinha sofrido com dor na consciência por negar pedidos antes de pensar nas possibilidades de poder ou não ceder, pedi um tempo às meninas para procurar algo. Como minha filha ainda é um bebê, não tinha qualquer brinquedo que eu julgasse servir para as meninas. Lembrei que havia um pequeno jogo de jantar de plástico, ainda novo, guardado na estante. Ele tinha peças pequenas e eu não deixava minha filhota brincar com medo de que engolisse algo. 

Voltei à frente da casa e, assim que abri a porta, os olhos pidões acompanharam atentamente a trajetória do brinquedo da minha mão para a da mais velha. 

- Me dê outro! – ordenou a menina mais nova. 

- Outro eu não tenho. É só isso aí. Vocês são de onde? 

As meninas não me responderam. Baixaram as vistas e a mais velha, mais uma vez, deu o comando: 

- Me dê um pão. Me dê uma comida. 

Suspirei, tentando compreender que, pelo estado lastimável que se encontravam, encardidas, vagando sozinhas pelas ruas, educação era algo inimaginável dentro do seu universo de abandono. Aí, tentei dar uma de tia instrutiva: 

- Ó, quando forem pedir algo. Primeiro cumprimentem, peçam por favor... É mais educado. A garotinha menor deu um sorriso cínico e lançou mais uma ordem: 

- Você é legal. Me dê uma chinela! 

- Não tenho do seu número. Mas não fiquem por aí soltas. É perigoso. Vão para casa, pois já está escurecendo. 

Elas simplesmente viraram as costas e saíram em disparada rumo à casa da frente. Eu fiquei olhando por alguns segundos e fechei a porta. Meu coração doía, pois não sabia o que fazer. A situação das duas me revoltou. Eu sei que são produto da miséria, de pais despreparados. Se estavam vagando sozinhas, é bem capaz da situação em casa não ser nem um pouco atraente. Atenção, carinho, zelo, era algo que parecia ser totalmente desconhecido. 

O olhar duro das duas me feriu. Não tinha a inocência e despreocupação típicas da idade. Elas me fitaram como se eu fosse um alvo inimigo. Suas ordens eram as armas que usavam para me intimidar e conseguir o que julgavam ser o suficiente para satisfazer suas necessidades. Fiquei pensando no destino das duas. O que usariam depois para satisfazerem seus desejos imediatos? O corpo, armas? Quem as mostraria pobreza não é defeito e devemos agir de forma digna, procurar algo que nos satisfaça e complete por inteiro e não só no momento? Quem sou eu para dizer o que elas precisam de verdade? Como posso ajudá-las de verdade? 

Fiquei com perguntas sem respostas, martelando na minha mente e machucando minha alma. Liguei para o Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos. Expliquei a situação à atendente. Ela me explicou que o serviço fica em Brasília e que eu deveria procurar o Conselho Tutelar da cidade para que fossem tomadas providências imediatas. Liguei para o Conselho Tutelar e fui orientada a, da próxima vez, entreter as meninas e ligar para o serviço para que uma equipe as levasse até sua família. 

As respostas que recebi não foram suficientes para acalmar meu coração. Continuei me sentindo impotente e idiota.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O natal mais surreal

Nesse clima de final de ano, com a programação televisiva em clima de alegria e confraternização, eu fico me sentindo ainda pior nesse meu exílio, nesse deserto cujas temperaturas mínimas (isso mesmo, mínimas), ficam em torno de 27°. Não sou ligada aos rituais da época, não vejo muito sentido. Mas sou a favor de estar com pessoas que amo, tendo muitas conversas, risadas e comilanças. Não sinto falta das ceias de Natal ao Ano Novo. Sinto falta de estar com a minha gente que ama e compreende o meu jeito bobo. 

No último dia 24, minha mãe ainda tentou fazer uma ceia para “não passar em branco”, como disse ela. Teve arroz com legumes, farofa com passas (que eu catei uma a uma), um chester tão macio que a carne soltava dos ossos e, de sobremesa, um pudim de cremosidade perfeita. Apesar de todo carinho com que minha mãe temperou a comida, não passou de uma refeição gostosa. Sem desmerecer as companhias dela, do meu marido e da minha filha, mas senti falta de mais gente para comentar a refeição, tirar onda com a cara do outro, contar histórias, compartilhar sonhos... Mesmo assim, essa simples ceia nem de longe superou a mais surreal que já participei. 

Era dezembro de 2003. Valderico Reis, prefeito cassado de Ilhéus que acabou sendo cassado, estava em plena campanha de sua pré-candidatura. Eu estava me formando em Rádio e TV pela UESC. Valderico era dono de uma das principais rádios da região, a Gabriela FM. E o ex-marido de minha mãe era um dos babões que o acompanhavam para cima e para baixo atrás de alguma migalha. Minha mãe quis me dar uma forcinha no meu primeiro emprego e perguntou a Valderico se eu podia ficar acompanhando o dia a dia da rádio, sem compromisso. Ele não viu problema algum e eu comecei a estagiar com um locutor, Bonnie. Ajudava ele com os textos dos flashes, dava palpite na escolha das músicas... Ele era gente boa demais e, apesar de sua fama de cafajeste, sempre me respeitou enquanto mulher e profissional. 

Na rádio, passei a conviver com Valderico e sua família de perto. Sempre me trataram muito bem. Ele fez um mandato desastroso, mas não posso dizer que tenham me tratado mal. Pelo contrário! Dona Fátima, a ex-mulher dele, sempre foi um amor comigo. As filhas e o filho também me tratavam com polidez. Aí não lembro direito como foi, mas sei que estava convidada para a ceia de Natal da família Reis. Acho que ele convidou o babão ex-marido de minha mãe e ela acabou em chamando e, depois, dona Fátima também reforçou o convite. 

Na minha gulodice, a única coisa que pensei foi na comida. Se o peru era tão grande que mandaram assar numa padaria, imaginava o resto. Para não me sentir ainda mais deslocada, chamei meu noivo Felipe (hoje meu marido). A festa foi ao redor da piscina. Tudo decorado com laços, guirlandas, árvore de Natal e muita comida. Os bajuladores de Valderico chegaram aos poucos e, no final, fizeram-se poucos mesmo. Eu lá, sentada, sentindo uma mistura de espanto e vergonha, aos poucos tomava pé da situação em que me encontrava: 

- Felipe, a gente tá na casa de Valderico. Que doideira! 

- E sabe o que é ainda mais doido: passando o Natal com ele! 

De repente, Valderico surgiu de chinelos e vestindo um bermudão. Suas pernas eram tão brancas que parecia estar usando meias lavadas com Omo, água sanitária e anil. Ele chegou brincando: 

- Porra, porra! Olha a bermuda de boiola de meu filho! 

Não teve como deixar de rir da cena. Então, ele veio à nossa mesa. 

- Minha linda (ele nunca aprendeu meu nome), Luciana gostou muito de você. Quer que você trabalhe com a gente na rádio. Mas você não é sapatão, não, né? – e com tapinhas no meu ombro, complementou com: É brincadeira, é brincadeira! 

Depois de conversar com os bajuladores e ouvir as últimas fofocas do dia, Valderico sentou-se, ficou olhando para o infinito e cochilou onde estava, sentado em um canto da festa. 

E, mesmo com todo o luxo do ambiente, não havia 10% do amor que encontrei na minha última ceia. Porém, com certeza, vai demorar milênios para eu ter uma ceia de Natal tão surreal quanto a de 2003.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O que é isso?

Mas tem que saber como funciona também!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sensor de movimento

Sempre fico aflita quando tenho que utilizar algum equipamento com sensor de movimento. Minha impressão é que aquilo nunca vai funcionar, por mais que eu me mexa. Não é “tecnofobia”. É que, por mais que eu me sinta inferiorizada, minha timidez faz com que eu me ache o centro das atenções. Como se todos à minha volta esperassem eu fazer alguma besteira para soltar gigantescos “Ha-ha-ha”, igual no desenho do Charlie Brown. E, como a maioria desses equipamentos está em locais públicos, dispara também meu sensor de ansiedade. 

Parece que a porta eletrônica nunca vai abrir, mesmo que eu dance igual ao Mc Hammer em sua frente, indo de um lado a outro feito uma impressora matricial. Eu nunca sei o quanto devo passar minhas mãos embaixo das torneiras para que comecem a me fornecer água e também não sei por quanto tempo devo continuar me movimentando para que elas não desliguem no meio da lavagem. Ainda existem os secadores de mão, que viraram moda depois da onda ecologicamente correta de acabar com as toalhas de papel. O troço nunca dispara e nunca funciona o suficiente para secar a água. Por isso me irrito logo e enxugo as mãos na roupa. 

Falando em banheiro, dia desses eu fiquei ainda mais aflita ao usar o de um restaurante. Logo acima da porta, tinha esses sprays desodorizadores automáticos. Acho que nunca fiz um xixi tão rápido, pois me sinto mal com aerosol. Na hora de lavar as mãos, baixei a cabeça para proteger meus olhos. E, quando saí, fiquei com medo de levar um jato na nuca. Graças a Deus, saí ilesa, mantendo o perfume que escolhi depois de tomar banho. Nada de ficar cheirando a lavanda, flores do campo ou brisa marinha! 

Mas não foi sempre que me dei bem em banheiros com equipamentos automáticos. Uma vez, passeando em Curitiba, depois de sofrer com o frio e a chuva no centro da cidade, a vontade de eliminar líquidos apertou. Entrei numa loja e pedi para usar o sanitário. Deixei meu marido olhando umas roupas, enquanto eu fui me aliviar. Assim que entrei no banheiro, a luz acendeu sozinha. Não dei muita importância, pois minha bexiga estava estourando. 

Na metade do meu longo xixi a luz resolveu apagar. Pensei: “Era só o que faltava, acabar a energia agora!” O banheiro ficou em breu total, pois não tinha basculante. Daí, logo me lembrei que a luz era com sensor de presença. Com a bolsa pendurada no pescoço, calças arriadas e forçando os joelhos para não encostar na tábua, tive que fica balançando minhas mãos no alto para que o sensor captasse meu movimento e a bendita luz acendesse. Além disso, tinha que tentar administrar o meu xixi, praticamente incontrolável por causa do tempo que fiquei prendendo. Patético! 

Depois de muito me balançar, a única opção foi controlar meu medo de escuro e terminar o meu xixi confiando em minha pontaria. De olhos fechados, fui tateando o pacote de lenço de papel dentro da bolsa para me limpar. Afinal, não enxergava um palmo na frente do meu nariz. Terminado o serviço, assim que me levantei, a desgraçada da luz acendeu só para eu olhar a minha cara de palhaça em frente ao espelho.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quando perguntar ofende

Falta mais de um mês para 25 de dezembro, mas a decoração natalina já chegou às vitrines e prateleiras do comércio. E começam também a aparecer algumas residências iluminadas com pisca-piscas, papais-noéis... Para mim, o Natal é uma festa tão artificial quanto seus ornamentos, um costume tão importado quanto o Halloween. É risível ver pinheirinhos de plástico borrifados com tinta branca num país tropical. E mais: em pleno sertão, quando dezembro é a época do calor mais infernal. 

Sei que tem gente que acha o Natal a melhor época do ano. Tem o lance da confraternização, troca de presentes, ceia em família, etc. Só que eu também tenho direito de considerar a época chata, hipócrita, consumista. Na minha casa é que os enfeites não entram. Papai-Noel então, nunca passará de um personagem fictício e comercial para a minha filha. E se ela me perguntar se Jesus nasceu mesmo nessa data, explico que a inventaram para substituir festas pagãs. 

Como quase todas as aversões que sinto, a minha contrariedade em relação ao Natal é fruto de trauma de infância. Eu vivia me sentindo culpada por não conseguir me comportar bem para ser digna de ser presenteada pelo bom velhinho. Afinal, assim que começava o mês de dezembro, meus pais faziam questão de me lembrar a todo o momento que Papai-Noel não me daria aquilo que pedi por causa das minhas traquinagens. 

Certa vez, tive até uma resposta de Papai-Noel. Na noite do dia 24, botei o sapatinho que mais gostava na janela. De manhã cedo, fui conferir se havia algum brinquedo. Achei uma carta dizendo que esse ano estava difícil, que teve enchente no Rio de Janeiro e havia muitas crianças precisando dele e era para eu guardar segredo sobre a carta. Claro que eu tinha que guardar segredo! A carta escrita com a letra de meu pai. Só se fosse para eu me sentir ainda mais idiota. Pronto, frustração eterna em relação a data. 

Depois que meus pais se separaram então... Tinha que ir para a casa dos outros, onde sempre tem alguém bebendo mais do que deveria. E eu também recuso algumas comidas típicas da época. Por que tudo precisa ter passas e ser agridoce? Farofa com passas, arroz com passas, salpicão com passas e maçã, lombo com laranja. Ceia natalina passa longe das minhas preferências. 

Apenas uma vez eu tive que deixar de lado as minhas convicções em relação ao Natal. Estava em casa, quando meu pai bateu à porta. Dei um beijo no meu coroa, antes de sentarmos para conversar, ele puxou o conteúdo que trazia numa sacola plástica. 

- Olha o que eu fiz! – exibiu o objeto com satisfação. 

Era um aro oval, feito de festão verde e enrolado com uma fita vermelha. Estava troncho, com um laço murcho. Aí, tive que fazer a graça: 

- E pra quem é essa coroa de defunto, meu pai? 

- Eu fiz essa guirlanda de Natal para você – respondeu tão chocho quanto seu artesanato. 

Fiquei tão sem graça com a minha pergunta infeliz que não apenas aceitei a lembrancinha, como a deixei pendurada por quase um mês na parede da sala. Às vezes, perguntar não ofende somente a quem se pergunta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Morte encomendada

Fui acordada com os seus gritos enquanto ela era arrastada pelo beco. Eram gritos histéricos, desesperados, de quem sabia que seu destino não seria nada agradável. Depois de ouvir as súplicas por piedade não consegui mais pregar os olhos. Revirei-me na cama pensando no que ela estaria sentindo naquele momento, com os pés amarrados, carregada de qualquer jeito pelos seus membros superiores, enquanto, assustada, observava o ambiente estranho ao seu redor sem entender direito o porquê de estar ali. 

Não consegui mais dormir, pensando na execução iminente da pobre vítima. Ouvi o ruído dos seus pés arranhando o balcão inox, mais alguns gritos e depois só o silêncio. “Ela morreu agora”, pensei. E a angústia cresceu ainda mais, pois eu sabia que teria que encarar o corpo sem vida. Ainda no meu quarto, não sabia o cenário que iria encontrar. Será que havia sangue espalhado? Será que ela sentiu a morte chegar aos poucos, enquanto a vida se esvaía pelo corte em seu pescoço? Foi terrível imaginar isso. Mas eu tive que tomar coragem e deixar o conforto da minha cama, que já não estava tão confortável assim por causa da consciência pesada. 

Abri a porta do quarto meio vacilante, caminhei em direção ao quintal, local onde o assassinato foi cometido. O corpo dela não estava mais lá, o que me aliviou. 

- Ouvi a gritaria – falei para a carrasca. 

- Ah, nem fez tanto barulho assim – respondeu com a frieza de quem já havia matado dezenas. 

- Cadê ela? – perguntei. 

- Já está na geladeira. 

- Jogou a cabeça fora? É nojento ver a cara da defunta. 

- Joguei! Está dentro do balde de lixo. Quer olhar? – disse a algoz, em tom de deboche, com um sorriso de canto de boca. 

Apesar do mal estar que a cena me causou, bateu uma curiosidade mórbida e ainda cheguei a erguer um pouco a tampa do balde de lixo, porém só avistei parte de suas vestes. 

- Pô mãe, da próxima vez compra frango congelado. Esse negócio de matar a galinha em casa é medieval. 

- Foi você quem disse que estava com vontade de comer ensopado de galinha. 

Eu sabia que para conseguir o que eu queria teria que haver morte, mas eu não precisava acompanhar parte do processo sinistro. Um dia, eu tomo vergonha e viro vegetariana.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pai para toda obra

Ô leva eu, minha saudade...
Este domingo (14), será o dia dos pais. Infelizmente, não poderei comemorar a data ao lado do meu, já que estamos separados por mais de 700 quilômetros. A vantagem é que, mesmo com grande distância física, sempre estamos próximos em coração. E as tecnologias ajudam a diminuir a saudade. Compartilhamos nossas vidas através de longas conversas por telefone, ele vê um pouco do que estou fazendo pela internet... Mas nada substitui o contato físico, que é o único remédio eficaz contra a saudade. 

Meu pai e eu sempre fomos próximos, apesar de sermos bem diferentes. Quando eu era pequena, era ele quem cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava. Costumo dizer que tive uma criação às avessas. Meu pai era quem me dava banho, levava para a escola, para o médico, para passear, penteava meus cabelos, cortava minhas unhas e até brincava de boneca comigo. Uma das lembranças mais gostosas é quando ele me colocava para dormir, aconchegada em seu peito e cantando alguma música de Roberto Carlos ou impostando a voz bem grave para imitar Nilo Amaro e seus cantores de Ébano: “Ô, leva eu, minha saudade. Eu também quero ir, minha saudade. Quando chego na ladeira tenho medo de cair...” 

Eu não posso me queixar que não tive um pai participativo. Ele é um pai tão completo que já chegou ao ponto de não precisar de mim para desempenhar o papel e receber as honras do título. Quando eu estava na pré-escola, o colégio organizou uma festa diferente para homenagear os pais. Nada de apresentação de coral infantil ou lembrancinhas feitas com macarrões colados. Seria uma corrida de pais, levando ao extremo a ideia de “pai super-herói”. A competição seria na manhã do domingo dos pais, na Avenida Soares Lopes. 

Quando cheguei com a proposta da corrida do dia dos pais, o meu velho se empolgou na hora. Ele sempre foi meio tirado a atleta, pulava corda, exercitava-se com um par de alteres, fazia flexões, barras, abdominais... Todos os exercícios ritmados com inspirações violentas que faziam suas narinas vibrarem e expirações pela boca, as quais geravam pequenos assovios. Eu sabia que ele não faria feio na competição e estava doida para torcer por sua vitória. 

Na manhã do domingo, acordei e não encontrei o meu coroa em casa. Conferi a hora e vi que estava mais que atrasada para a corrida dos pais. Já passava das 9h30min e o evento estava marcado para as 8 horas. Fiquei tão desapontada, pois meu pai tinha prometido participar da competição e ele nem em casa estava. Mas a frustração durou pouco tempo, quando ouvi o barulho da corrente do portão de entrada. Fui correndo para receber meu pai com uma bronca, mas fiquei meio sem reação quando o vi. Ele estava todo suado, com a camisa da corrida e uma medalha feita de broa, pendurada no pescoço por uma fita verde. 

- Oxe, painho! Onde é que o senhor estava? – indaguei. 

- Ora, fui participar da corrida. Você não acordou na hora. – respondeu. 

Confesso que a frustração acabou se transformando em raiva. Como é que meu pai foi participar de uma homenagem aos pais sem o principal: a filha. Afinal, ele só era pai por minha causa. 

- Mas e por que o senhor não me chamou? 

- Você estava dormindo tão bonitinho! 

Essa foi a resposta que me quebrou minhas pernas. Mesmo sabendo que participar da competição seria apenas uma chance de exibir seu bom condicionamento físico para as professoras solteironas ou frustradas, o meu velho demonstrou o que fazia dele um pai. Sua preocupação constante com o meu bem estar.

sábado, 9 de julho de 2011

De quem eram os caracóis?

Meu pai sempre me disse que todo mundo nasce com um dom, um talento especial. Confesso que até hoje nunca descobri o meu. Penso que dom deve ser algo que você seja capaz de fazer acima da média e eu me considero mediana em tudo, para não dizer medíocre em muitas coisas. 

Já tentei aprender esportes e nunca me dei bem em nenhum. Até pra correr eu tenho falta de coordenação! Para tocar instrumentos tenho certa facilidade, aprendo com bastante rapidez, mas me falta disciplina. Dançar piorou. Se não acerto respirar e correr, que dirá  movimentar braços, pernas e quadris em direções opostas. Cozinhar é uma atividade que só exerço quando estou de veneta. Faço até uns pratos gostosinhos (brigadeiro é comida, tá?), porém nada estupendo. 

Mas já que toquei no assunto comida, acho que identifiquei minha habilidade. E não é comer, embora faça isso com bastante satisfação. Se eu fosse mutante, com algum poder especial, seria o de encontrar cabelos em comida. Essa, sim, é a minha maior habilidade. Vira e mexe tem algum fio capilar ou até cílio repousando no meu prato ou recheando algum. Já encontrei madeixas conhecidas e desconhecidas dentro de cachorro-quente, quibe e até pão! 

O meu último grande achado foi em um restaurante “chiquetoso” de Ilhéus. Com a ajuda de minha mãe, eu e meu marido tiramos um par de horas de folga da nossa filha para namorarmos um pouco. Decidimos experimentar um lugar novo para servir de cenário ao raro momento a dois. Pegamos o cardápio e escolhemos algo diferente da nossa pizza tradicional: Bacalhau a Gomes de Sá. Além do peixe nórdico, batatas, cebolas, azeitonas, ovos cozidos e brócolis regados a muito azeite. 

A espera pelo bacalhau foi um tanto desgastante, pois já chegamos com uma certa fome e o suco não estava mais enganando a barriga de ninguém. O ambiente era relativamente agradável, sem som alto. A decoração com chitas tentava passar alegria, mas não conseguia esconder a atmosfera meio esnobe. Demorou tanto que o namoro a dois virou encontro de famintos mal humorados. 

Quando o tal Bacalhau a Gomes de Sá finalmente deu o ar da graça, foi servido enquanto um coral imaginário entoava Aleluia de Handel em minha cabeça. Em minhas primeiras garfadas, senti algo diferente. Quando puxei, era um fio tão comprido que parecia aquele truque que o mágico tira trocentos metros de fita da boca. Coloquei o cabelo no prato e examinei a comida com o garfo. Voilà! Eis que surge um companheiro para o primeiro fio. Nisso, o garçom se aproximou discretamente da minha mesa e disse: 

- Não é cabelo, é fibra do brócolis. 

- Mas eu nunca vi brócolis loiro – respondi com um sorriso cínico. 

O garçom ficou desconcertado, deu uma risadinha amarela, que deve ter sido tingida com a mesma tinta barata dos fios de cabelo encontrados. Felipe, meu marido, perguntou se eu queria trocar de prato, mas como encontrar cabelos em comida faz parte do meu cotidiano e a fome estava corroendo um buraco em minhas costas, deixei pra lá e continuei comendo. Meu protesto foi jurar nunca mais voltar ao restaurante presunçoso da cozinha cabeluda. Afinal, não posso ficar gastando meu dom à toa.

domingo, 19 de junho de 2011

O gato comeu

Sempre me questionei se há diferença entre sentir culpa ou remorso. Apesar de parecerem sinônimos, penso que o segundo sentimento é o mais pesado, sendo provocado pelo primeiro. Mas o indubitável é que sentir qualquer um dos dois é terrível, um martírio o qual a consciência faz o papel de carrasco cruel digno de servir ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. 

Na dúvida entre as definições dos sentimentos, procurei o dicionário. Usei o online mesmo, pois estava sem ânimo para fuçar a estante empoeirada e buscar o velho Aurélio, montado ao longo da compra de várias edições da Folha de São Paulo. E também é mais fácil de copiar e colar, né? (Ah! Estou há mais de um ano sem dormir. A preguiça é mais que justificável!) 

Culpa: s.f. Ato ou omissão repreensível ou criminosa; falta voluntária, delito, crime. 
Remorso: s.m. Reprovação da consciência que sente haver cometido uma falta. 

Ler esses significados ajudou a clarear minha mente e reforçou a ideia que eu já tinha sobre ambos. Sentir culpa é saber que você fez merda. Já o remorso é se atormentar pela merda feita. A culpa nem sempre provoca arrependimento, mas o remorso é mais que se arrepender, é uma auto-condenação. 

Único momento em que fui santa
Eu reconheço minha culpa por vários “delitos” e não me arrependo nem um tiquinho de algumas maldades. Exemplos: injetar pimenta em bubbaloo, jogar barata morta em amiga tomando banho, pôr cobra de borracha na cadeira da professora, passar escova de dente do ex-padrasto na privada, colocar laxante no leite do mesmo ex-padrasto (dá pra notar que não tínhamos uma boa relação), e por aí vai. Nada que seja caso de polícia. Bem, só se as duas infelizes que eu dei umas boas muquetas tivessem dado queixa. Mas nunca fiz nada que machucasse alguém seriamente (bem, eu nunca mais falei com as infelizes após os catiripapos). Só que nunca passei a imagem que sou alguma santa. Apenas quando desfilei vestida de santa Rita pela Escolinha que estudei aos três anos.

Já remorso, eu sofro muito quando me lembro de algumas injustiças que cometi (ok, as infelizes que apanharam de mim devem se sentir injustiçadas, mas estão no meu rol de culpa, beleza?). Há uns 18 anos, conheci menininha que dizia ter cinco anos e freqüentava a casa de minha avó, no Rombudo, em Ilhéus. O nome dela era Arlete, mas chamavam de Bucho, pois tinha a barriga bem grande. A mãe enlouqueceu, abandonou-a junto com seus três irmãos. Seu pai era alcoólatra e sempre mijava nos únicos colchão e lençol que dividia com os filhos. Ela morou uns tempos lá em casa, mas como eu era muito mimada, não aprendi a compartilhar o amor e atenção de minha mãe. Sinto-me uma canalha, mesmo sabendo que não dá para exigir muita maturidade de uma criança de 10 anos. Choro até hoje ao pensar em tudo o que ela poderia ter deixado de sofrer se continuasse conosco.

Mas não posso continuar me condenando pela história de alguém que nem sei o desfecho. Parece um pouco com o caso que minha mãe viveu e se condena até hoje. Quando ela era menina, criava um gatão preto bem bonito. Chamava tanta atenção que muitas pessoas  desejavam comprá-lo. Inclusive o dono de um circo. Todavia, o bichano não seria adquirido como atração de picadeiro, e sim para virar ingrediente de mandinga para curar a tuberculose do filho do cara. 

Pois, junto com o gato preto, na casa também tinha um pássaro preto, que cantava lindamente em sua clausura. Diz minha mãe que, um dia, sentiu dó da pobre ave e resolveu dar-lhe a liberdade. Só depois de abrir a gaiola é que se deu conta de que meu avô tiraria o couro dela ao saber de sua ação generosa. Para se livrar da culpa, deixou a gaiola no chão, como se tivesse sido derrubada. Quando meu avô chegou da rua, viu o cenário do crime e tomou a atitude pelo o que presumiu.

Nunca mais ninguém soube do gato.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Se fizessem um filme

Sempre que eu ouço uma música que conta alguma história, eu construo todo o roteiro em minha imaginação, visualizando a letra em cenas com pessoas reais, cenário, figurino e, claro, trilha sonora! 


Recentemente, li que no site Omelete que estão filmando "Faroeste Caboclo", de Renato Russo. Finalmente as aventuras e desventuras de João do Santo Cristo, Maria Lúcia, Jeremias e companhia ganharão vida fora da mente de quem ouve a canção. Os protagonistas são os atores Fabrício Boliveira e Ísis Valverde. Espero que o roteiro de Marcos Bernstein ("O outro lado da rua" - filme muito legal com Fernanda Montenegro e Raul Cortez) e Victor Atherino supere o criado por minha cabeça.

Mas o que motivou esse post foi o vídeo da campanha para o dia dos namorados da Vivo, que  também bebeu na fonte de Renato Russo, dando vida a "Eduardo e Mônica". A princípio, rumores diziam que se tratava de um longametragem, mas logo foi esclarecido pela imprensa que se tratava de publicidade. O resultado ficou excelente: Roteiro, edição, fotografia, direção primorosos! Também, a produção é da agência África e contou ainda com a assinatura da O2 Filmes, do premiado diretor Fernando Meirelles.




Já que estão transportando canções para as telas, espero que alguém se inspire e transforme "Marvin", do Titãs, ou "Janaína" o Biquini Cavadão, em filme!


Update:
Aí, hoje me deparo com a notícia de que o vídeo seria um plágio do comercial da empresa de celular ATL em 2001. Na moral, plágio ou não, o da Vivo fica anos luz à frente na qualidade. Confiram e comparem:



É, a ideia pode até ser igual, mas a execução dela... quanta diferença!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os cães ladram e...

Aqui em casa tem três cachorros que não valem por um. Dois são meus, Lola e Garu, que juntos não pesam nem quatro quilos. Ainda tem Nina, que pertence à minha mãe e é um trisco de nada que mal chega a um quilo. Todos adultos da raça pinscher e parentes. Lola é mãe de Garu e Nina é sobrinha de Lola. A família incluía ainda Lindinha e Zuca. A primeira morreu no ano passado e a segunda está fazendo companhia para uma antiga vizinha. Praticamente uma dinastia de pinschers! 

Apesar do tamanho diminuto, os três são excelentes cães de guarda. Latem para tudo e todos como se pudessem destruir qualquer coisa com o barulho estridente que produzem. Porém, isso acontece apenas quando não está fazendo um friozinho e elegem como prioridade ficar aninhados entre seus paninhos quentes. Mas, no geral, latem para qualquer coisa que considerem um invasor: pássaros, calangos, o rapaz da água mineral, fogos de artifício e gatos. Os últimos são os mais irritantes, pois pirraçam legal. Ficam miando no muro, passeiam pelo telhado e olham cinicamente para os caninos imbecis que não param de ladrar. Petulantes! 

Há umas duas madrugadas, houve a maior confusão aqui em casa. Um exemplar felino resolveu desafiar a ira dos meus pinschers passeando pelo chão do quintal. Não sei se ele caiu do muro ou era tão insolente que subestimou a ferocidade dos meus guardiões. Às três da manhã começou o deus-nos-acuda. Fomos despertados pelos latidos neuróticos e agudos dos cãezinhos, acompanhados do baque do portão lateral. Ouvimos o bufar do gato seguido pelo choro de Garu. 

Meu bravo marido levantou da cama e foi conferir o nível da balbúrdia. Minha filhinha também foi despertada e eu tinha que correr contra o tempo e niná-la antes que despertasse de vez e começasse a brincar e bater palminhas. Felipe chegou ao quintal e viu que o auê estava na varanda. Correu para a frente e deu de cara com o gatão preto se estabacando do muro enquanto os cachorros saíam em disparada em seu encalço. 

- Era um gato enorme! Correu lá pro quintal. Agora eles que se resolvam – relatou meu marido ao voltar para o quarto. 

Todavia, a confusão não terminou. O gato desastrado não conseguiu fugir e subiu na mangueira. Os cachorros continuavam latindo, acho que com medo dele descer novamente. Nisso, minha mãe, que havia elegido como prioridade ficar no aconchego de sua cama, resolveu aparecer para dar fim à confusão. Quando ela abriu a porta, viu apenas o vulto preto descendo em desabalada carreira da árvore em direção ao fundo. Como ela não tinha visto que era um gato, ficou com medo de ser um bicho estranho. Um diabo da Tasmânia ou um chupa-cabras quem sabe! 

Apesar do temor do animal desconhecido, minha mãe tomou coragem e tentou resgatar nossos cãezinhos. Para espantar a besta ela resolveu se impor. 

-Au-au-au! - ouvimos uma pequena série de latidos em tom mais grave. 

Sim, minha mãe resolveu LATIR para o gato. Eu não consegui conter o riso, mesmo tentando não fazer barulho para minha filha voltar a dormir. Sussurrando e segurando a gargalhada, comentei com Felipe: 

- Pô, três cachorros não resolvem e minha mãe também tem que latir! 

Pois é... Contrariando o ditado popular, os cães ladram e minha mãe também!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Que minha filha nunca faça isso!!

Depois de assistir a esse vídeo, eu peço a Deus que minha filha nunca faça isso. Acho que eu teria um ataque de pelanca! 
Esse vídeo eu achei no Jacaré Banguela.

domingo, 8 de maio de 2011

sábado, 30 de abril de 2011

Daileon

Não sei o que é, mas acho que quando se vira mãe/pai, a gente perde a capacidade de falar e entender certos nomes corretamente. Acontece muito quando queremos nos referir a alguém famoso. Eu achava que isso nunca aconteceria comigo, mas aconteceu. E essa constatação é internacional, como o pessoal do Saturday Night Live brinca nesse vídeo:


Uma vez, eu quis comentar sobre o problema de umidade nas paredes e quis citar como exemplo atriz que morreu contaminada pelo mofo da casa. Saí chutando tanta besteira até que o cérebro esquentou para Hillary Duff.

-Brittany Murphy! Brittany Murphy! - socorreu-me Felipe.

- Ah, eu sou mãe, agora eu posso!

 Mas tem outro tipo de gente, que escuta o que quer. Minha mãe mesmo, pega o celular chinês de minha filha e fica querendo traduzir o que estão dizendo. Já saiu "Ai, ai, menina nota 10", "Ai, ai, Calypso nota 10"... E por aí vai. Só lembrei desse vídeo do saudoso seriado japonês Jaspion. Com vocês, o gigante guerreiro Daileon!

domingo, 24 de abril de 2011

Ai, meus ovos!

Eu tinha três ovos minúsculos. Apesar de não me orgulhar deles, era melhor que nada. Eles vinham numa maleta transparente, acompanhados por uma caneta Bic que não funcionava nem sob reza braba. A maleta ainda era fechada com grampeador (ah, as normas de segurança dos anos 1980! Existia Inmetro?). Além de ficar desapontada com a péssima qualidade do “mimo”, corria o risco de ganhar uma espetada ou, quem sabe, até um grampo atravessando o dedo. Esse foi o meu presente de Páscoa de boa parte da minha infância. 

Os ovinhos de chocolate eram horríveis. Acho que a Garoto fazia com os restos do Batom, pois o gosto era medonho. Mas aquelas coisinhas chochas, ocas, sem graça e que colocavam minha integridade física em risco tinham que cumprir o papel de me alegrar na Páscoa. Aliás, no domingo pascal já tinham virado lenda, pois meus pais sempre me davam a maletinha de ovos antes. E alguém já ouviu falar de alguma criança humana de três a sete anos com autocontrole? Só se for algum andróide, extraterrestre ou alma penada. 

Eu suplicava por um ovo de chocolate descente. Porém, meus preocupados genitores tinham o argumento pronto: 

- Você não agüenta comer um ovo inteiro. Vai passar mal. 

Puxa vida! Parecia que eu tinha que comer o ovo de chocolate em uma sentada só. Tipo aqueles prêmios insanos que você tem que devorar sozinho duas pizzas grandes e ganha outra de brinde. É como se o chocolate tivesse prazo de validade até o domingo. No dia em que Jesus ressuscitava, todos os ovos de chocolate da face da Terra eram arrebatados? Qual é? 

Confesso que eu invejava quem recebia ovos de chocolate de verdade, cujo tamanho é definido por números. Se eu desejava um ovo 15, acho que juntando os meus três relentos não fazia nem 0,5! Como eu não tinha noção de preço, pensava que meus pais iriam à falência se gastasse alguns cruzeiros a mais para satisfazer meu pedido. Iria faltar pão em nossas mesas por causa do meu consumismo. Era uma relação de usura e ódio. Morria de raiva daqueles ovinhos ordinários, dentro daquela maletinha vagabunda, acompanhados por aquela caneta inútil, todavia não abria mão daquela desgraça. 

Certa Páscoa, eu fui obrigada a exercitar ainda mais o meu desapego material. Fui passar a Semana Santa na casa da minha tia, em Valença. Adorava ficar solta na rua, correndo na pracinha, catando sementes, subindo em árvores... Meus dois primos tinham quase a minha idade e eram meus companheiros das melhores brincadeiras e brigas. Tudo a gente tinha que fazer junto e igual para não dar confusão. Só que confusão maior foi quando mostrei, antecipadamente, minha maletinha de ovos sem vergonha. 

- Eu quero um ovo – solicitou abertamente um dos meus primos. 

- Eu também quero – reiterou o pedido do irmão. 

Eu arregalei meus olhos e estampei na cara logo uma expressão clara de negação. Puxa vida, eu só tinha aquelas porcarias e ainda precisava dividir? 

- Karol, são três ovos, dá um para cada. Deixe de ser egoísta e divida com seus primos. Eles estão nos recebendo tão bem na casa deles – coagiu-me a minha mãezinha. 

Eu relutei, choraminguei, fiz biquinho, mas não teve jeito. Acuada pelos olhares pidões dos meus primos e o olhar ameaçador da minha mãe, cedi. Fiquei com aquele ovinho embalado em papel alumínio vermelho, que sempre se rasgava ao ser descascado. 

- Olha, a situação não é tão ruim. Você ainda ficou com a maleta e a caneta – consolou-me meu pai. 

Acho que se fosse hoje, eu mandava pegar a maleta e a caneta, fazer um rolo e enfiar em um lugar bem inapropriado. Muito animador, evoluí espiritualmente tendo a minha individualidade violentada. Pior foi quando, no domingo de manhã, meus primos ostentavam seus ovos de chocolate tamanho 20. Um para cada um. E eu não fazia parte desse “cada um”. Só não chorei porque devo ter ficado com a cabeça tão quente que as lágrimas evaporaram. 

- Vai ficar chateada por causa de chocolate? Que bestagem! – desdenhou minha mãe. 

O problema para as outras Páscoas foi resolvido. Passei a ter horror a ovos de chocolate.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Feito um passarinho

Acho tão bonitinha essa expressão “feito um passarinho”. Deixa qualquer coisa mais suave, até mesmo fofinha. Tem gente que dorme feito um passarinho, com sono curto e leve. Ser livre feito um passarinho, voar para onde e quando quiser, sem nada que impeça a vontade. Tem quem morre como um passarinho. Não a pedradas, mas de maneira sutil, natural. Tem quem come feito um passarinho. Quase nada, menos até do que o moderado. Eu já comi feito um passarinho, mas não nesses moldes. Vou explicar nas linhas seguintes. 

Minha filha está com quase um ano e já se locomove por conta própria. Engatinhando pela casa, preenche o ambiente com o guinchado de seus pés arrastando no piso de cerâmica. E a hora de comer ganhou alguns complicadores. Quando ela está disposta a comer é uma maravilha. Acaba com o conteúdo do prato numa sequência ininterrupta. Mas quando a pequenininha quer bagunçar, é uma farra. Nos momentos de perseguição pela sala, ela come, ri, vira a cara, cospe, bate a mão e foge. Uma graça até a quarta vez que faz a mesma presepada. Porém essa bagunça vai acabar assim que a cadeirinha de comer chegar. Com certeza a baderna ganhará outra cara. 

Esse processo de dar comida à minha filhotinha me lembrou um episódio da minha infância. Graças a Deus eu não me recordo da bagaceira. Só conheço a história por minha mãe me contar. Eu era ruim de boca, só queria saber de peito. Até para beber água dava trabalho. Isso tudo acabou depois que minha mãe arrumou uma babá. Não era uma Mary Poppins, mas conseguia fazer mágica. Como eu morava num sítio, ela me botava no colo e saía passeando comigo com o pratinho, que voltava vazio depois de algumas voltas entre as árvores. 

O único defeito de Rita, a babá maravilhosa, é que sempre arrumava encrenca com a moça que ajudava minha mãe na arrumação da casa. Sereia era meio descompensada do juízo, mas sempre se mostrou um doce. Nunca me deixavam sozinha com ela, mesmo ela demonstrando muita afeição por mim. Uma vez me deu uma boneca. Contam que ela trouxe meio com vergonha por ser simples demais. 

- É para a menininha - ofertou com carinho. 

Sei que os quebra-paus entre a faxineira e a babá eram tantos que minha mãe precisou escolher entre as duas. Ganhou aquela que demonstrava maior equilíbrio emocional. 

- Pode me dar umas três surras por dia. Uma de manhã, uma de tarde e outra de noite. Mas não me manda embora, por favor! – suplicou, inutilmente, Sereia. 

Rita continuou cuidando de mim, com zelo e conseguindo a façanha de que eu comesse sempre. Eu ganhei mais peso, fiquei com a pança mais cheinha. Todavia, a babá mágica foi perdendo seu encanto e um dia foi embora. Minha mãe encontrou uma conhecida e relatou que tinha perdido a moça prestativa que cuidava de mim. Mas a reação da amiga foi de deixar qualquer um abismado. 

- Que perigo vocês correram! Essa moça tem problemas psiquiátricos. Tem crises violentas e já colocou fogo até na própria casa. Graças a Deus que não tiveram problemas. 

Minha mãe respirou aliviada e foi contar a minha avó a descoberta sinistra. 

- Não é que a doida de verdade era a outra? Como eu iria imaginar? 

- Ih, Gau, então o que Sereia contou era verdade e eu achando que era invenção. 

- O que mãe? O que Sereia disse que Rita fez com Karol? 

Imagino que nesses segundos de tensão, o coração de minha mãe deve ter se exprimido até ficar do tamanho de uma azeitona. 

- Sereia contou que viu Rita mastigando a comida e dando a Karol, quando ela saía pelo sítio – revelou minha avó. 

E assim o truque da babá foi revelado. Sem a cenicidade do Mister M, mas causando igual surpresa e espanto. 

Ainda me embrulha o estômago e causa arrepios ao saber que eu um dia comi, literalmente, feito um passarinho.