Acho que são poucas as pessoas no mundo que se divertem em receber ligações de engano. Algumas situações são mais chatas que as outras, como ser acordado ou sair correndo do chuveiro para atender o telefone e ouvir alguém perguntando por um nome que nunca ouviu falar. O sentimento que causa é uma mistura de raiva e frustração.
Como não sou melhor que ninguém, já atendi diversas ligações erradas. Pior é quando ligam de celular a cobrar e de número privado. Aí, quando desligamos, a pessoa do outro lado da linha ainda insiste e, quando você resolve atender, diz:
- Não estava querendo falar comigo, não? – pergunta antes mesmo de ouvir um “Alô”.
Quando os enganos telefônicos acontecem em série, faz qualquer um perder a paciência. Xingar e berrar com o “ligador” chato é clássico. Mas há algumas formas mais elaboradas de se livrar da criatura que não acerta ligar para o número certo. Algumas expressões, a exemplo de: “Deu uma saidinha”, “Mudou de cidade” ou até mesmo “Morreu” podem até funcionar por um tempo. Porém não evitará atender novos telefonemas errados.
Uma das situações mais curiosas que já vivi foi quando uma mulher resolvia ligar para a minha casa.
- Alô, é da “rádia”? – perguntava de forma meio insegura.
- Não, é engano – eu respondia, pacientemente, nas primeiras vezes em que atendia o telefonema errado.
A mesma mulher ficou ligando no mesmo horário por algumas semanas. Às vezes eu atendia a ligação, outras vezes a minha mãe. Explicávamos que ela estava telefonando para uma residência, mas a criatura era perseverante.
Os sucessivos telefonemas errados despertaram a minha cólera. Eu já estava de saco cheio de atender a ouvinte desatenta, que não conseguia ligar para a emissora de rádio correta. Explicar não adiantava, dizer desaforos era pouco. Precisava agir de forma eficaz para me livrar daquela mulher.
O telefone tocou no horário habitual das ligações inconvenientes. Corri para atender e ouvi a questão esperada:
- Alô, é da “rádia”? – perguntou a mulher pela milésima vez.
- Sim, é da rádio – respondi com firmeza.
- Ô, minha irmã, eu posso falar com o pastor? – esta foi a primeira frase diferente da ouvinte avoada.
- Não, minha querida, o pastor está ocupado. Como posso ajudá-la? – perguntei delicadamente.
- Ô, minha irmã, eu quero uma oração pela minha família. O meu marido está bebendo, “tá” com mulher na rua e não estou agüentando – desabafou.
Ao ouvir o desejo da ouvinte que nunca acertava o número da emissora de rádio, respondi que estaria orando pela sua família e que ela era mais que vencedora. Ela demonstrou tanta felicidade ao escutar os incentivos, que me agradeceu, abençoou e desligou.
O engraçado nesta história é que, ao invés de me sentir vingada, meu coração ficou repleto de culpa. A ouvinte distraída só estava querendo atenção e receber palavras de estímulo. Eu comecei a me sentir uma canalha, que havia enganado uma mulher sofrida. O que eu poderia fazer para reparar meu mal? A única coisa que me ocorreu foi atender ao seu pedido e orar por ela.



0 comentários:
Postar um comentário