sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Gol de quem?

O futebol pode até ser uma paixão nacional e os campeonatos vêm para temperar ainda mais a vida dos amantes. Quem está jogando pode até não ser o time do coração, mas pode ser o do amigo, do vizinho ou de algum parente. O resultado vai render comemorações ou resenhas. Mas, quem ganhará?
Nada contra o esporte, mas à algazarra causada por alguns torcedores mais afoitos, que colocam as horas de jogo (além do intervalo e das mesas redondas) como prioridade absoluta. Se as mulheres ficam vidradas nas novelas, os homens se descabelam pelo futebol.
Na minha limitada avaliação, as confusões geradas a partir dos jogos de futebol parecem com as formas primitivas de disputas por território. Se os homens das cavernas guerreavam contra clãs diferentes por um local melhor, hoje, os homens modernos marcam seu território comparando títulos obtidos pelos clubes que adotam como seus.

Ao vestir a camisa do time, o torcedor parece estar com uma armadura impenetrável. E, se a cerveja for sua companheira, aí é que pode ficar ainda mais gozador e corajoso. Infla o peito para exibir o escudo do clube que nunca freqüentou e, muitas, vezes até seria barrado. Grita o nome de jogadores que vão ganhar milhões e gastá-los sem nunca o consultar.

Muitos torcedores apaixonados devem se chatear com o meu ponto de vista. Mas é que não vejo muita vantagem em sair praguejando por algo distante ou celebrar um feito que não vai te edificar. Certa vez, quando o Bahia perdeu, um torcedor desabafou para as câmeras de um programa esportivo:
- Deixei de comprar o leite da minha filha para ver essa porcaria! – berrou, sacudindo a camisa.

Este exemplo pode ser o extremo da torcida irresponsável. Mas, durante as grandes decisões, vejo atos parecidos. Ao invés de dar atenção aos filhos e às esposas, pais preferem ficar em portas de bares com pessoas nem tão amigas, correndo o risco de ser incluído ou atingido por alguma briga.

Durante os clássicos ou finais de futebol, algumas famílias se reúnem para ficar em frente à televisão. Às vezes comem, bebem, celebram juntas. Mas, seus corações estão distantes. Não são íntimas o suficiente para conhecer os conflitos interiores do outro, os desejos e os planos. Abraçam-se a cada gol sem saber o que se passa na cabeça e na vida dos seus parentes.

Sei que problemas como estes não são gerados pelos campeonatos de futebol. Confusão existe desde que o mundo é mundo e o distanciamento familiar acontece por fatores que passam longe do futebol. Mas é que vejo momentos preciosos serem desperdiçados ou mal utilizados.

Está certo que o auê dos mais animadinhos me incomoda. Mas é algo que me faz refletir sobre o momento. Com o time ganhando ou perdendo, qual virtude ganhará o torcedor fanático? Afinal, a segunda-feira vai chegar e os problemas não desaparecerão com os gritos de gol.

Torcer, berrar, xingar podem até fazer bem como lazer momentâneo. Desvencilhar-se das convenções impostas pelo cotidiano pode dar a sensação de liberdade. Mas, o verdadeiro gol será de quem?

0 comentários: