sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Mais um ano juntos

Há três anos, eu e meu marido resolvemos comemorar mais um ano juntos indo ao shopping, em Itabuna. Pode não ser o programa mais romântico para um casal, mas, diante das possibilidades que atendiam ao nosso gosto, foi a mais viável.

Comemos uma promoção número 1 do Mc Donald’s, tomamos sorvete e olhamos as vitrines. Ao final do dia, fomos andando até o centro da cidade para pegar o ônibus de volta pra casa. Como já era mais de 19 horas, o ponto estava cheio. Não pudemos ficar juntos. Felipe sentou num lugar paralelo ao meu e, virados para um para o outro, ficamos conversando.

Na saída da cidade, perto do antigo parque Cavalo de Aço, um rapaz se levantou, foi até a cobradora e, puxando uma arma da cintura, anunciou o assalto.

- Todo mundo abaixa, que é assalto – falou de maneira firme, com os olhos petrificados.

Daí pra frente, eu abaixei e, prevendo a futura coleta dos pertences, deixei minha bolsa nos meus pés, no corredor. Fiquei olhando para meu marido, que, preocupado, falava, baixinho, para eu me acalmar. E, por incrível que pareça, eu estava calma. Estava tão calma, que fiquei consolando a garota que estava do meu lado.

De repente, houve um burburinho. Ouvi uns berros e explosões secas. Eram tiros! Fechei os olhos e orei para que nenhuma bala perdida encontrasse a mim ou meu marido. Houve um burburinho e alguém falou ao motorista:

- Vai, vai, acelera! Não pára, não!

- Pronto, seqüestraram o ônibus! – lamentei.

Ao invés dos gritos continuarem, o burburinho foi se acalmando. Eu quis levantar para ver o que acontecia. Ao olhar para Felipe, ele me mandou continuar abaixada. Mas a curiosidade foi maior e, devagarzinho, ergui minha cabeça, atrás da cadeira da frente.

Vi algumas pessoas em prantos, outras assustadas demais para demonstrar qualquer sentimento. E cadê o assaltante? Meus olhos correram pelo ônibus e não o identifiquei. Até que olhei para baixo da catraca. Ele estava deitado, todo mole. Ao seu lado, corria um filete de sangue.

Assim como o rapaz nos surpreendeu, ele também foi surpreendido por um policial civil que viajava nas cadeiras da frente. Querendo arrumar alguns trocados para comprar não sei o que, acabou com uma bala na cabeça. Eu não conseguia parar de olhar para o corpo. Um dos pés dele estava sem a sandália e a camisa um pouco levantada.

Nunca pensei que a morte de alguém iria me trazer conforto. Confesso que foi um alívio ver o assaltante caído, desfalecido. Não é o pensamento “antes ele do que eu”. Mas é que diante daquela situação extremamente desconfortável – que nunca pensei que viveria – a bala que o atingiu na cabeça foi a salvação para todos.

Ao descer no posto da polícia rodoviária, abracei o meu marido e agradeci a Deus por podermos comemorar mais um ano juntos.

No outro dia, li o nome do assaltante no jornal. Ele se chamava Joilson.

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