Chega de “Eu podia estar matando, eu podia estar roubando”. Estamos na era da mendicância por bilhetinhos. E não são bilhetinhos ordinários, com caligrafia torta em papel amassado. São digitados, xerocados e plastificados! Melhores até que muitos cartões de visita. Bem feitos e duráveis para garantir muitas esmolas por tempo indeterminado. Os pedintes sistematizaram a esmolinha.
As súplicas são bem escritas, tem estilo! Certa vez, no ônibus, deparei-me com a seguinte: “Prezado amigo, sou deficiente mental e Preciso da sua ajuda para sobreviver. Deus te ilumine”. Isto é uma aula de marketing! O cara mostra o produto, apela para o sentimental e ainda faz com que se sinta especial antes mesmo de contribuir. E, depois de entregar os cartões, ainda ratifica: “Qualquer dez centavos serve, porque o pouco com Deus é muito”.
Imagino o que muitas pessoas devem estar achando desta minha análise: coração de pedra, coitadinho do cara, deficiente, precisando comprar remédios, precisando da sua ajuda para sobreviver. Aí é que vem o mais engraçado. Depois de assistir o pedido de caridade, a moça sentada ao meu lado resmungou algo, reprovando a ação do pedinte. Começamos a conversar sobre o fato do rapaz, visivelmente doente mental, receber o benefício do INSS e ainda sair por aí pedindo. E ela veio com a bomba:
- Esse aí tem família, já trabalhei na casa da tia dele. O povo só deixa ele com metade da aposentadoria. Gasta tudo com mulher. Ele mesmo ficava querendo coisa comigo, me oferecendo dinheiro. Pedi pra sair. Depois ele me atacava, e aí? Como consertar o malfeito?
Eu comecei a rir. Não da cara da mulher, mas da situação. O rapaz estava ali, no ônibus, complementando sua quota da luxúria. Afinal, o seu benefício estava sob administração de sua família, o resto, ele que se virasse. E se virou! Confeccionou seus bilhetinhos, pegou seu cartão de gratuidade – já que é deficiente e não paga passagem – e saiu por aí, garantindo os trocados para suas “coisinhas”.
- Eu saio do outro lado da cidade para ganhar meu salário mínimo e ele ganha o dele sem fazer nada e ainda se fazendo de vítima – completou a mulher revoltada.
Mas é isso mesmo, quem não chora não mama. No caso do nosso “Prezado Amigo”, o ditado se aplica literalmente. Porém ele não é o único pedinte que faz uso dos eficientes cartões de esmola. Inúmeros já passaram pelas minhas mãos, distribuídos acompanhados de olhares tristes e sussurros melancólicos. Cria-se todo um clima para garantir a eficiência do negócio.
Certa vez um rapaz me passou um bilhetinho mais ou menos assim: “Tenho quatro irmãos pequenos. Eles precisam de mim para viver. Aceito qualquer quantia ou vale transporte”. Foi aí que descobri que os “dizeres” estavam sendo importados. Onde é que em Ilhéus tem vale transporte? Aqui se usa cartão eletrônico, o famoso Sistema Inteligente de Transporte. O cara simplesmente copiou o pedido de um pedinte forasteiro e estava “jogando o barro na parede pra ver se cola”.
Noutra oportunidade, estava numa clínica, esperando ser chamada pelo médico, quando um senhor me abordou com os famosos bilhetinhos esmoleiros. Este caso foi ainda mais curioso, pois havia lacunas para ser preenchidas de acordo com a forma de mendicância: “Sou surdo. Vendo estes ___ para sobreviver por apenas ___”. Outra esmola importada, só que este foi displicente. Foi tão afoito que nem percebeu que o seu empreendimento estava sendo mal utilizado. Talvez tenha que pedir uma consultoria ao primeiro que citei. Ele, sim, sabe como vender o seu peixe!
É, a globalização afetou até mesmo a forma de esmolar, sistematizando o trabalho, poupando tempo e rendendo mais. Se estas pessoas tivessem um pouco mais de juízo, sairiam ministrando palestras pelo Brasil afora. Recebendo o pagamento após distribuir seus bilhetinhos, claro!



0 comentários:
Postar um comentário