sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O Photoshop de antigamente

Ficamos tão maravilhados com os recursos de manipulação fotográfica de hoje, mas esquecemos que, nos tempos dos nossos avós, isso não era novidade. Os retoques em imperfeições físicas, hoje popularizados em tirar gordurinhas, espinhas, celulites e estrias, começaram a ser usados há décadas e os seus resultados já estiveram presentes em milhares de lares brasileiros.

A expressão “photoshopado” virou sinônimo de alguém que teve seus atributos físicos melhorados digitalmente. E, quando penso em Photoshop, lembro logo da revista Playboy, que faz qualquer baranga virar musa depois de alguns cliques. Mas esse estica e puxa virtual não começou com a era da computação gráfica. Esses dias eu estava lembrando daqueles retratos pintados à mão que, geralmente, tinha na casa do pessoal “muito mais vivido”.

Geralmente de casais (com homens sempre atrás das mulheres, para dar uma idéia de proteção), as fotografias passavam por maquiagens, cabeleireiro, figurino e “cirurgia plástica”. Se a pessoa tivesse orelha de abano, o artista diminuía o exagero natural e deixava o “Dumbo” muito mais humano! No final, todo mundo ficava com cara de boneco de cera.

Uma vez assisti um documentário sobre o assunto, contando que esse tipo de trabalho estava acabando. Para fazer os retratos, um pessoal saía oferecendo o serviço de porta em porta. Aí, quem aceitava emprestava uma foto para servir de base. Sempre perguntavam:

- Que tipo de jóia a senhora quer? Colar, brincos? E o terno do senhor, qual a cor? – sugeria o vendedor.

Às vezes tinha gente que nunca havia vestido um terno. Talvez só na hora do velório, para deixar uma última lembrança mais distinta. Mas, nos retratos, estavam muito bem compostos, chiques de doer. Os cabelos impecáveis nem lembravam a juba da foto que inspirava o trabalho.

Lembro que tinha um retrato desses na casa de minha avó. Eu sabia que era ela e meu avô, mas às vezes era difícil reconhecer a pessoa. Apesar de serem baseados em pessoas reais, pareciam que carregavam a mão na tinta e virava uma gravura qualquer. Igualzinho acontece quando se empolgam “photoshopando” os modelos sem muitas qualidades estéticas.

O retrato pintado que havia na casa de minha avó tinha uma característica interessante. Como não havia nenhuma fotografia dos meus avós juntos, pegaram 3x4 dos documentos de identidade deles para servir de modelo. Só que as fotos eram de épocas muito diferentes. A do meu avô foi de quando ele começou a trabalhar, ainda rapaz. E a da minha avó foi quando ela tinha uns 50 anos! Apesar de terem apenas um ano de diferença, no retrato pintado parecia que 30 anos os separavam.

- É bom que todo mundo pensa que peguei um garotão – dizia minha avó Miúda, fazendo gozação.

Seja o Photoshop de hoje ou de antigamente, ambos deixam os retratados do jeito que gostariam. Seja ao gosto dos clientes ou dos artistas.

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