Há algumas semanas estive na capital baiana e conheci o Salvador Shopping. Como jeca do interior, cheguei cedo para aproveitar cada minuto naquele ambiente esterilizado, onde tudo parecia funcionar de maneira orquestrada. Estava me sentindo num filme futurístico, com uma voz dando boas vindas, as portas de ferro das lojas subindo sozinhas, telas de LCD servindo como vitrines, seguranças muito bem uniformizados andando em “Segway’s” (veículos com rodas paralelas, parecidos com patinetes), descargas a vácuo, pisos de vidro...
Enquanto caminhava pelos corredores do Salvador Shopping, minha cabeça tabaroa registrava cada detalhe diferente. Fiquei besta ao ver que naquele local futurístico tinha Ricardo Eletro. A loja era tão bem arrumada que nem parecia pertencer à rede de apelo popular. Andei pelos corredores, admirando a beleza da arquitetura, paisagismo e decoração do local. Pensava: o que o dinheiro não faz?
Aquele império do consumo futurístico me reservava ainda mais uma surpresa. Fui conhecer a loja de diversões eletrônicas. Os brinquedos não traziam nada de novo. Muito pelo contrário, alguns eram até bem velhinhos. Porém, as atribuições de um funcionário do local me atraíram. Pela primeira vez eu vi um narrador de fliperama!
Quando ouvi o nome de um garoto nas caixas de som, acompanhado da descrição frenética sobre como estava se saindo no jogo de corrida, caí na risada. O menino estava em penúltimo lugar, mas o funcionário, com microfone nas mãos, narrava empolgadamente a disputa:
- Vai, “Fulaninho”, dividindo mais uma curva, pronto para uma ultrapassagem...
O pai, orgulhoso, estava ao lado do filho e, sorridente, incentivava o garoto, enquanto o narrador do fliperama descrevia as trombadas do pequeno jogador como grandes feitos. Ao final do jogo, o funcionário ajudou o “competidor” a sair do brinquedo e deu os parabéns pela corrida. O menino, tímido e orgulhoso, saiu de cabeça baixa, com um sorrido nos lábios.
Depois de presenciar a cena, fui refletir sobre o que tinha visto. Narrador de Fliperama! Quem diria... O cara era pago para inflar o ego das crianças e dos pais, que ficam orgulhosos em ouvir os nomes dos filhos nas caixas de som. Entendi isso como a forma de eles demonstrarem que se importam com o que os filhos fazem, destacando-os no meio de todos.
O narrador de fliperama também servia como um reserva da imaginação infantil. Enquanto, nos meus tempos, eu me esbagaçava com a bicicleta, imaginado corridas e obstáculos fantásticos, o cara era pago para empolgar as crianças, aumentando tudo o que estava sendo feito nos jogos. Que graça tinha, eu não sei. Coisas do futuro! Foi aí que voltei a pensar: o que o dinheiro não faz?



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