Há alguns meses, mexendo numas caixas velhas, reencontrei meus antigos diários e agendas. Havia textos escritos há mais de 15 anos, quando eu estava recém saída da alfabetização. A princípio, meus olhos bateram logo nos erros ortográficos, típicos de quem ainda está aprendendo a dominar a complicada língua portuguesa. Mas, ao reler o que estava escrito, pude reviver momentos, sensações e sentimentos que hibernavam na minha memória.
Eu fui da época em que os diários tinham cadeado. Enquanto os jovens de hoje expõem suas vidas íntimas em blogs, eu e minhas amigas preferíamos desabafar para o papel, escrevendo confissões, sonhos, angústias. A maioria dos textos remete a amores (correspondidos ou não), mas também há coisas do dia-a-dia: provas terríveis, mortes e nascimentos, passeios, viagens... A maioria das histórias começava com a célebre frase: “Querido Diário”.
O Diário não era só uma forma de manter as recordações, era um amigo estimado, que a gente podia contar tudo sem ser julgada. Os problemas descritos não iriam se resolver, as expectativas não iriam se concretizar, mas o prazer em desnudar a alma e descrever o que passava pela cabeça no momento era fantástico. Parecia que uma tonelada saía dos ombros e a mente ficava aberta para outros pensamentos.
Seja futilidade, criancice, ingenuidade, tudo o que escrevia ao “Querido Diário” era aquilo o que eu era no momento. Descrevia tudo com intensidade e encanto, típicos de quem está descobrindo as maravilhas do mundo. Se fosse amor, era eterno, se fosse raiva, era devastadora. Aí, nas páginas seguintes, ou tinha algo desdenhando do que fora escrito antes ou então algo totalmente desconexo com o fato narrado anteriormente.
Os meus diários e agendas não eram atualizados com muita periodicidade. Há intervalos de dias, meses, dependendo do momento que eu vivia. Mas eu tinha amigas que tinham agendas monstruosas, que mal fechavam de tanto cacareco colado. Era palito de picolé, panfleto de festa, mecha de cabelo, folhas desidratadas, além das fotos e adesivos. Hoje, na era da internet, estes itens únicos foram substituídos por vídeos gravados por celular ou fotografias manipuladas digitalmente, com molduras, filtros coloridos ou até virando capas de revista.
Apesar do ar nostálgico, não quero dizer que os meus diários e agendas eram melhores que as formas que os adolescentes guardam suas memórias hoje em dia. Mas era uma forma diferente, pois imortalizava os momentos em algo palpável. A primeira menstruação era lembrada pela fita que cobria o adesivo do absorvente, o primeiro beijo era relatado junto com o papel da bala chupada para garantir o bom hálito e por aí vai.
Outros itens legais dos diários e agendas eram as traduções de música e as poesias. Enquanto nos dias atuais o Google resolve tudo, a meninada metia a cara no dicionário ou então aguardava a revista que trazia a letra na nossa língua-mãe. Aí, recortávamos bem bonitinho, decorávamos com hidrocor e glítter. Tudo feito com esmero, por mais que ficasse brega.
Lembrei de alguns fatos e de pessoas com saudades. Também de outros que eu gostaria de nunca ter vivido ou conhecido. Por bem ou mal, tudo serviu para moldar quem eu sou hoje, os meus conceitos e preconceitos. E quem me ajudou a reviver tudo isso foi o meu “Querido Diário”.



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