domingo, 24 de agosto de 2008

Troféu proibido

Nunca imaginei que falar sobre os “Troféus de Piranha” fosse algo tão perigoso. Mostrei o texto a uns amigos meus e eles me alertaram primeiro, dizendo que eu estava sendo preconceituosa. Aí, reli o texto e mudei alguns parágrafos, deixando ainda mais claro que nem todas que recebem os famigerados buquês são piranhas e que nem todos que os compram querem exclusivamente faturar a presenteada.
Mas, mesmo mudando alguns parágrafos, para evitar que qualquer pessoa “direita” se sentisse ofendida, o “Troféu de Piranha” foi vetado. O segundo alerta que recebi: “As piriguetes vão te pegar na rua, vão te dar uma pedrada e quebrar sua cabeça”. Pronto. Este conselho foi o ponto de partida para minha mente embarcar no “Fantástico mundo de Bobby”.

Imaginei meu texto sendo publicado no site mais lido da região e todas as piranhas, vadias, piriguetes, “se boteiras”, pistoleiras e pregueteiras se enfurecendo ao ler as minhas colocações infames. Então, numa noite fria, com uma garoa bem fina caindo, elas me surpreenderiam quando eu tentasse sair de casa. Viriam vestidas com seus guarda-roupas de batalha: tops minúsculos, blusinhas decotadas, calças de cintura baixa com a marquinha do biquíni a mostra, sandálias com salto de acrílico e cabelos entupidos de Kolene. Armadas com tochas, foices e celulares V3 com capas do Paraguai. O meu fim seria aparecer nas páginas policiais: “Jovem é atacada após ofensa às piris”.
Matutei, refleti e concluí: Será que as piranhas assumidas teriam realmente ficado chateadas com o meu texto sobre os troféus de piranha? Não disse que mereciam ser lançadas à fogueira e muito menos quis dar a entender que são criaturas inferiores. Diferentes, talvez. Afinal, ainda há muitos que as acham boas, gostosas, filés da Bahia...
Parece que falar de piranhas pode ser tão perigoso quanto fazer caricaturas do profeta Maomé ou pular o muro de um quartel à meia-noite. Apesar de tentar evitar qualquer mal-entendido, o meu texto sobre o “Troféu de Piranha” continuou ameaçador. O engraçado é que eu não usei o termo para chamar as mulheres que recebem o buquê de vagabundas. Apenas falei um pouco sobre o objeto e contei uma história que vivi. Mas, como diz o ditado popular: “De boas intenções o inferno está cheio”.

Seguem abaixo os trechos que tentei aliviar:

(...)Também não quero tirar o romantismo do troféu de piranha. Ainda há aqueles que o compram para agradar a amada de forma sincera. Estes são raros, mas existem. Para demonstrar seu carinho publicamente, presenteiam não só suas namoradas, esposas ou amantes. Dedicam os buquês também às suas amigas, filhas ou qualquer outra mulher que tenham carinho.

Eu aprendi este termo quando tinha uns 11 anos. É bastante preconceituoso, mas não deixa de ser engraçado. Certa noite, minha mãe e um ex-namorado dela me chamaram para comer pizza. Na mesa em frente, havia um casal bem peculiar: um homem mais velho com uma jovem em trajes condizentes com o nome pejorativo do troféu. Quando o vendedor chegou com a cesta, com pequenos buquês arrumados em círculo, minha mãe me puxou para repassar o seu ensinamento: chamam aquilo de troféu de piranha.
Comecei a acompanhar o vendedor pela pizzaria. Ele tinha sua estratégia de venda muito bem feita: chegava só em casais. De repente, o rapaz foi chamado pelo estalar de dedos do homem da mesa da frente. Aproximou-se da cesta, puxou o troféu e o ergueu à frente da ninfeta. (...)
Na semana passada, descobri que o famigerado troféu de piranha está acompanhando os avanços tecnológicos. As flores são artificiais acompanhadas de fibras óticas. O buquê, apoiado em uma base plástica, muda de cor gradativamente. Estes não vieram para substituir os antigos, pois são vendidos com uma utilidade a mais: peça de decoração. Mas, para mim, ainda são troféus de piranha.

1 comentários:

Sandra disse...

Vc é ótima!!!
Bjs