sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Troféu de Piranha

Não sei se a maioria das pessoas conhece o termo, mas é bem capaz de já terem visto, dado ou recebido o tal troféu. Não é reluzente ou grandioso. Mas quem o ganha precisa exibi-lo em meio a dezenas de pessoas. A entrega do “prêmio” não é embalada ao som do Hino Nacional. Talvez uma voz e violão, teclados, ou som mecânico tocando o ritmo mais apropriado ao ambiente: serestas, forrós, arrochas...

Comercializado em cestinhas carregadas por vendedores que se esforçam em parecerem simpáticos, os troféus de piranha são dedicados exclusivamente ao sexo feminino. Afinal, qual mulher não gosta de ganhar flores? Não que todas que o recebam sejam piranhas, mas o comportamento de grande parte dos homens que compram a “peça” demonstra o desejo de que elas se comportem como tal. Ou querem facilitar o afastamento dos joelhos ou as recompensam pelos momentos prazerosos já vividos.

Também não quero tirar o romantismo do troféu de piranha. Ainda há aqueles que o compram querendo agradar a amada de forma sincera e ingênua. Estes são raros, mas existem. Porém se conhecessem a conotação do objeto, talvez preferissem arrancar hibiscos que nascem à beira da rua.

Eu aprendi este termo quando tinha uns 11 anos. Certa noite, minha mãe e um ex-namorado dela me chamaram para comer pizza. Na mesa em frente, havia um casal bem peculiar: um coroa com uma jovem em trajes condizentes com o nome do troféu. Quando o vendedor chegou com a cesta, cheia de pequenos buquês arrumados de forma circular, minha mãe já me puxou para repassar o seu ensinamento: chamam aquilo de troféu de piranha.

Comecei a acompanhar o vendedor pela pizzaria. Ele tinha sua estratégia de venda muito bem feita: chegava só em casais. De repente o rapaz foi chamado pelo estalar de dedos do coroa da mesa da frente. Ele se aproximou da cesta, puxou o troféu e o ergueu à frente da ninfeta. Ela sorriu, deu um beijinho no “amado” e colocou o objeto junto ao peito. Daí eu, na minha inocência infantil gritei:

- Ih, mãe, a mulher da frente ganhou o troféu de piranha! – disse aos risos e apontando o dedo para facilitar ainda mais a identificação da sujeita.
É óbvio que minha mãe ficou rosa, vermelha, roxa de vergonha. Mas, não agüentou e também começou a rir da situação. Afinal, todo mundo perdoa a honestidade infantil. A ganhadora do troféu não demonstrou tanta satisfação. Fez uma cara de mau gosto que foi desfeita quando o coroa sussurrou algo no seu ouvido e deu uma fungada no seu cangote.
A partir deste episódio, sempre que vejo os vendedores se aproximando com as cestinhas repletas de buquês, não consigo mais deixar de acompanhá-los e rir a cada venda. A diferença é que agora controlo a minha língua, pois há muito tempo perdi a áurea infantil que protegia minha sinceridade.

Na semana passada, descobri que o famigerado troféu de piranha está acompanhando os avanços tecnológicos. As flores são artificiais e, através de fibras óticas, mudam de cor. Não vieram para substituir os antigos, pois estes são vendidos com uma utilidade a mais: servir de peça de decoração. Mas, mesmo assim, continuam sendo troféus de piranha.
Se alguém tem dúvidas se já recebi ou permiti que me comprassem um troféu desses, a resposta é um sonoro não!

Querido Diário

Há alguns meses, mexendo numas caixas velhas, reencontrei meus antigos diários e agendas. Havia textos escritos há mais de 15 anos, quando eu estava recém saída da alfabetização. A princípio, meus olhos bateram logo nos erros ortográficos, típicos de quem ainda está aprendendo a dominar a complicada língua portuguesa. Mas, ao reler o que estava escrito, pude reviver momentos, sensações e sentimentos que hibernavam na minha memória.

Eu fui da época em que os diários tinham cadeado. Enquanto os jovens de hoje expõem suas vidas íntimas em blogs, eu e minhas amigas preferíamos desabafar para o papel, escrevendo confissões, sonhos, angústias. A maioria dos textos remete a amores (correspondidos ou não), mas também há coisas do dia-a-dia: provas terríveis, mortes e nascimentos, passeios, viagens... A maioria das histórias começava com a célebre frase: “Querido Diário”.

O Diário não era só uma forma de manter as recordações, era um amigo estimado, que a gente podia contar tudo sem ser julgada. Os problemas descritos não iriam se resolver, as expectativas não iriam se concretizar, mas o prazer em desnudar a alma e descrever o que passava pela cabeça no momento era fantástico. Parecia que uma tonelada saía dos ombros e a mente ficava aberta para outros pensamentos.

Seja futilidade, criancice, ingenuidade, tudo o que escrevia ao “Querido Diário” era aquilo o que eu era no momento. Descrevia tudo com intensidade e encanto, típicos de quem está descobrindo as maravilhas do mundo. Se fosse amor, era eterno, se fosse raiva, era devastadora. Aí, nas páginas seguintes, ou tinha algo desdenhando do que fora escrito antes ou então algo totalmente desconexo com o fato narrado anteriormente.

Os meus diários e agendas não eram atualizados com muita periodicidade. Há intervalos de dias, meses, dependendo do momento que eu vivia. Mas eu tinha amigas que tinham agendas monstruosas, que mal fechavam de tanto cacareco colado. Era palito de picolé, panfleto de festa, mecha de cabelo, folhas desidratadas, além das fotos e adesivos. Hoje, na era da internet, estes itens únicos foram substituídos por vídeos gravados por celular ou fotografias manipuladas digitalmente, com molduras, filtros coloridos ou até virando capas de revista.

Apesar do ar nostálgico, não quero dizer que os meus diários e agendas eram melhores que as formas que os adolescentes guardam suas memórias hoje em dia. Mas era uma forma diferente, pois imortalizava os momentos em algo palpável. A primeira menstruação era lembrada pela fita que cobria o adesivo do absorvente, o primeiro beijo era relatado junto com o papel da bala chupada para garantir o bom hálito e por aí vai.

Outros itens legais dos diários e agendas eram as traduções de música e as poesias. Enquanto nos dias atuais o Google resolve tudo, a meninada metia a cara no dicionário ou então aguardava a revista que trazia a letra na nossa língua-mãe. Aí, recortávamos bem bonitinho, decorávamos com hidrocor e glítter. Tudo feito com esmero, por mais que ficasse brega.

Lembrei de alguns fatos e de pessoas com saudades. Também de outros que eu gostaria de nunca ter vivido ou conhecido. Por bem ou mal, tudo serviu para moldar quem eu sou hoje, os meus conceitos e preconceitos. E quem me ajudou a reviver tudo isso foi o meu “Querido Diário”.

É da “rádia”?

Acho que são poucas as pessoas no mundo que se divertem em receber ligações de engano. Algumas situações são mais chatas que as outras, como ser acordado ou sair correndo do chuveiro para atender o telefone e ouvir alguém perguntando por um nome que nunca ouviu falar. O sentimento que causa é uma mistura de raiva e frustração.

Como não sou melhor que ninguém, já atendi diversas ligações erradas. Pior é quando ligam de celular a cobrar e de número privado. Aí, quando desligamos, a pessoa do outro lado da linha ainda insiste e, quando você resolve atender, diz:

- Não estava querendo falar comigo, não? – pergunta antes mesmo de ouvir um “Alô”.

Quando os enganos telefônicos acontecem em série, faz qualquer um perder a paciência. Xingar e berrar com o “ligador” chato é clássico. Mas há algumas formas mais elaboradas de se livrar da criatura que não acerta ligar para o número certo. Algumas expressões, a exemplo de: “Deu uma saidinha”, “Mudou de cidade” ou até mesmo “Morreu” podem até funcionar por um tempo. Porém não evitará atender novos telefonemas errados.

Uma das situações mais curiosas que já vivi foi quando uma mulher resolvia ligar para a minha casa.

- Alô, é da “rádia”? – perguntava de forma meio insegura.

- Não, é engano – eu respondia, pacientemente, nas primeiras vezes em que atendia o telefonema errado.

A mesma mulher ficou ligando no mesmo horário por algumas semanas. Às vezes eu atendia a ligação, outras vezes a minha mãe. Explicávamos que ela estava telefonando para uma residência, mas a criatura era perseverante.

Os sucessivos telefonemas errados despertaram a minha cólera. Eu já estava de saco cheio de atender a ouvinte desatenta, que não conseguia ligar para a emissora de rádio correta. Explicar não adiantava, dizer desaforos era pouco. Precisava agir de forma eficaz para me livrar daquela mulher.

O telefone tocou no horário habitual das ligações inconvenientes. Corri para atender e ouvi a questão esperada:

- Alô, é da “rádia”? – perguntou a mulher pela milésima vez.

- Sim, é da rádio – respondi com firmeza.

- Ô, minha irmã, eu posso falar com o pastor? – esta foi a primeira frase diferente da ouvinte avoada.

- Não, minha querida, o pastor está ocupado. Como posso ajudá-la? – perguntei delicadamente.

- Ô, minha irmã, eu quero uma oração pela minha família. O meu marido está bebendo, “tá” com mulher na rua e não estou agüentando – desabafou.

Ao ouvir o desejo da ouvinte que nunca acertava o número da emissora de rádio, respondi que estaria orando pela sua família e que ela era mais que vencedora. Ela demonstrou tanta felicidade ao escutar os incentivos, que me agradeceu, abençoou e desligou.
O engraçado nesta história é que, ao invés de me sentir vingada, meu coração ficou repleto de culpa. A ouvinte distraída só estava querendo atenção e receber palavras de estímulo. Eu comecei a me sentir uma canalha, que havia enganado uma mulher sofrida. O que eu poderia fazer para reparar meu mal? A única coisa que me ocorreu foi atender ao seu pedido e orar por ela.

Gol de quem?

O futebol pode até ser uma paixão nacional e os campeonatos vêm para temperar ainda mais a vida dos amantes. Quem está jogando pode até não ser o time do coração, mas pode ser o do amigo, do vizinho ou de algum parente. O resultado vai render comemorações ou resenhas. Mas, quem ganhará?
Nada contra o esporte, mas à algazarra causada por alguns torcedores mais afoitos, que colocam as horas de jogo (além do intervalo e das mesas redondas) como prioridade absoluta. Se as mulheres ficam vidradas nas novelas, os homens se descabelam pelo futebol.
Na minha limitada avaliação, as confusões geradas a partir dos jogos de futebol parecem com as formas primitivas de disputas por território. Se os homens das cavernas guerreavam contra clãs diferentes por um local melhor, hoje, os homens modernos marcam seu território comparando títulos obtidos pelos clubes que adotam como seus.

Ao vestir a camisa do time, o torcedor parece estar com uma armadura impenetrável. E, se a cerveja for sua companheira, aí é que pode ficar ainda mais gozador e corajoso. Infla o peito para exibir o escudo do clube que nunca freqüentou e, muitas, vezes até seria barrado. Grita o nome de jogadores que vão ganhar milhões e gastá-los sem nunca o consultar.

Muitos torcedores apaixonados devem se chatear com o meu ponto de vista. Mas é que não vejo muita vantagem em sair praguejando por algo distante ou celebrar um feito que não vai te edificar. Certa vez, quando o Bahia perdeu, um torcedor desabafou para as câmeras de um programa esportivo:
- Deixei de comprar o leite da minha filha para ver essa porcaria! – berrou, sacudindo a camisa.

Este exemplo pode ser o extremo da torcida irresponsável. Mas, durante as grandes decisões, vejo atos parecidos. Ao invés de dar atenção aos filhos e às esposas, pais preferem ficar em portas de bares com pessoas nem tão amigas, correndo o risco de ser incluído ou atingido por alguma briga.

Durante os clássicos ou finais de futebol, algumas famílias se reúnem para ficar em frente à televisão. Às vezes comem, bebem, celebram juntas. Mas, seus corações estão distantes. Não são íntimas o suficiente para conhecer os conflitos interiores do outro, os desejos e os planos. Abraçam-se a cada gol sem saber o que se passa na cabeça e na vida dos seus parentes.

Sei que problemas como estes não são gerados pelos campeonatos de futebol. Confusão existe desde que o mundo é mundo e o distanciamento familiar acontece por fatores que passam longe do futebol. Mas é que vejo momentos preciosos serem desperdiçados ou mal utilizados.

Está certo que o auê dos mais animadinhos me incomoda. Mas é algo que me faz refletir sobre o momento. Com o time ganhando ou perdendo, qual virtude ganhará o torcedor fanático? Afinal, a segunda-feira vai chegar e os problemas não desaparecerão com os gritos de gol.

Torcer, berrar, xingar podem até fazer bem como lazer momentâneo. Desvencilhar-se das convenções impostas pelo cotidiano pode dar a sensação de liberdade. Mas, o verdadeiro gol será de quem?

Extraviaram minha mãe

Já ouvi algumas histórias de pessoas que tiveram suas bagagens extraviadas ou perdidas em vôos. Mas, o meu caso foi bem diferente, pois extraviaram minha mãe. Como? Ao invés de fazer uma viagem de meia-hora, de Salvador para Ilhéus, ela foi passear em Aracaju e São Paulo.

O infeliz extravio aconteceu quando resolvi dar de presente a minha mãe uma chance mais rápida para vir me ver. Como ela não gostava muito das várias horas de ônibus, pensei que um vôo seria maravilhoso.

O meu suplício começou quando, ansiosa, estava esperando ela chegar no aeroporto. Como fazia tempo que ela não vinha à cidade, foi uma parte da família ficar esperando ela descer as escadas do avião. Faltando uns 10 minutos, meu padrasto me telefona:

- Sua mãe só vai chegar amanhã de manhã, pois ela pegou o avião errado – informou-me.

A princípio, pensei que fosse brincadeira dele. Fiquei aguardando o avião dela chegar, esperando vê-la desembarcar com um sorriso maroto. Mas, minhas esperanças foram frustradas, quando o avião pousou e a última pessoa desceu. Daí que minha ficha caiu:

- Extraviaram minha mãe – lamentei.

Fui até o balcão da companhia para saber direito o que havia acontecido. A atendente fez um resumo da ópera:

- Sua mãe embarcou num avião para Aracaju. De lá, voltará para Salvador, de onde irá para São Paulo e pegará um vôo de volta – explicou tranquilamente.

Eu endoidei. Coloquei a mão na cabeça e perguntei:

- Mas e ela chega quando?

- A companhia está ciente de tudo. Este foi o trajeto mais curto para ela vir para Ilhéus. Sua mãe chegará amanhã, às 9 horas – informou a atendente.

Já era mais de meia-noite. Um vôo que duraria menos tempo do que meu forno demora para assar um bolo, faria minha mãe passar a noite percorrendo aeroportos e aviões.

Nem precisa falar que quase não dormi, pensando em minha mãe. O que ela estaria fazendo, se conseguiria pegar a conexão a tempo ou até mesmo a correta. Chorei, murmurei, xinguei do presidente da companhia aérea até o fiscal de pista.

Na manhã do outro dia, esperei minha mãe no bendito aeroporto. Fui me informar com a atendente, mas ela não sabia me garantir se minha genitora havia pegado o vôo correto. Aí minha angústia foi para o mais alto grau.

O avião vindo de São Paulo estava confirmado. Para aumentar o suspense, atrasou um pouquinho. Não via a hora da aeronave tocar o solo para poder abraçar minha mãe e dizer o quanto me preocupei.

Como um raio não cai no mesmo lugar com tanta freqüência, ela chegou sã e salva. Desceu as escadas rindo e soltando beijos. Adentrou no saguão de braço dado com a aeromoça, que também ria. Ela me abraçou forte e beijou minha testa.

- Mãe, a senhora está bem? – perguntei com lágrimas nos olhos.

- Menina, passei um bocado! – exclamou, soltando uma gargalhada e tirando um punhado de balas toffe do bolso.

Só minha mãe para se divertir com os contratempos! Não é à toa que se chama Maria das Graças.

Apertem os cintos, o padre sumiu!

Imaginem a cena: um garotinho olhando para o alto, com o dedinho apontado para o céu e perguntando para a sua mãe:

- Mãe, o que é aquilo? É um pássaro? Um avião? É o super-homem?
E a mãe respondendo:

- Não, filho, é um padre!

Pois é, a onda de religiosos alados não parou com a série americana, do início da década de 70, A noviça voadora. Na trama, a jovem atriz Sally Field interpretava a irmã Bertrille, que levantava vôo, quando uma ventania batia no chapelão aerodinâmico do seu hábito.

A nossa versão brasileira ficou a cargo do padre paranaense Adelir de Carli, que tentou voar por 180 quilômetros, preso a balões coloridos. Mas, a aventura dele seguiu um caminho totalmente diferente da noviça voadora. Ao invés de salvar pessoas, ele é que está precisando de amparo.

Está certo que se trata de uma situação lastimável, envolvendo um ser humano, com família, amigos e um sonho. Mas, a história não deixa de ser cômica. Ainda mais quando se escuta as últimas conversas dele pelo celular:

- Alguém tem que me ensinar como se usa o GPS – solicitou o padre.

Gente, como é que alguém em sã consciência, amarra-se a balões de gás hélio, prepara-se para uma viagem de 20 horas e não sabe manusear um GPS? Desculpem-me pela franqueza, mas eu caí na risada. Parecia cena de alguma comédia protagonizada pelo Leslie Nielsen. Eu já imagino uma adaptação, com o grisalho narigudo, interpretando o sacerdote.
E o padre voador ainda teve o disparate de amparar a aventura dele na fidelidade de Deus, declarando que sua fé no Altíssimo o livraria de qualquer mal. Mas ele esqueceu de uma parte das Sagradas escrituras que dizem: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Isso pode ser lido em Mateus, quando Satanás manda Jesus se jogar de um precipício para ser amparado por anjos.
Não estou condenando o padre aventureiro, mas é que todo o desdobramento de sua aventura está sendo tragicômico. Antes de se enveredar pelos ares, disse desejar quebrar um recorde e estar chamando atenção para a Pastoral Rodoviária, que apóia caminhoneiros. Infelizmente, todos os olhos se voltaram para o ar e, depois, para o mar.
Realmente, o padre voador conseguiu chamar a atenção de todo o Brasil e também da Marinha, Força Aérea, emissoras de televisão, sites... Quem sabe o padre Carli não está na ilha de Lost? Espero que se saia melhor que o Rodrigo Santoro.

Vergonha alheia

A primeira vez que ouvia expressão “vergonha alheia” foi num programa da MTV, apresentado por Marcos Mion. Ele usou o termo ao descrever o constrangimento que sentiu ao ver Ivete Sangalo e Rogério Flausino, imitando o personagem Barbosa, de Nei Latorraca, quando apresentaram um dos prêmios do VMB. Foi uma cena tão constrangedora, que só eles riram. Daí, o Mion descreveu o sentimento: vergonha alheia.

Sentir vergonha alheia é quando nos envergonhamos ao ver alguém se envergonhar. É mais do que ficar sem graça. É compartilhar o sentimento causado por uma situação embaraçosa. É quando a gente não sabe se ri, chora, esconde a cara e dá vontade de “cuspir no chão e sair nadando”, só para fugir do constrangimento de assistir alguém fazendo bobagem.
Uma das maiores “vergonhas alheias” que já senti, foi na última série do ensino médio. Lembro que tinha um professor todo gaiato. Em todas as aulas, contava uma piada, dava ousadia para os alunos brincarem com ele também.

Só que, na minha turma, tinha um menino mais saidinho que o professor. Era ele que falava mais alto, puxava os “sambões” no fundo da sala, dançava sempre que tinha algum evento e se considerava amigo de todo mundo. Além disso, ele se achava muito engraçado e gostava de tirar sarro das pessoas. Mas, o dia dele ser sacaneado estava chegando.

Numa das aulas do professor “descontraído”, o meu colega irreverente resolveu levantar a mão para fazer uma pergunta. O mestre deu permissão para ele falar:

- Professor, como é que sua irmã dança? – Disse ele com um sorrisão nos lábios.

O professor franziu a testa, apoiou-se sobre a mesa e, muito sentido, respondeu em tom de reprovação:

- Rapaz, que brincadeira sem graça! Minha irmã é deficiente.

O sorriso do garotão foi se desfazendo em câmera lenta. Os olhos, esbugalhados, demonstraram a surpresa da resposta e disse, tentando se corrigir:

- Não, professor. Foram os caras aqui que me mandaram perguntar. – Explicou, todo desconcertado, e falando bem mais baixo.

A sala inteira ficou boquiaberta diante da cena assistida. No meio do burburinho que se formou, ouvia-se “vixe”, “que situação”, “isso é que dar ser gaiato” e, o clássico: “Que mico!”.

Eu fiquei com a cara quente, de tanta vergonha que senti pelo colega. Ele era meio inconveniente, mas aquele foi um dos maiores foras que alguém poderia dar. Só anos mais tarde é que fui aprender o nome para definir o sentimento: vergonha alheia.

Porém, a situação vexatória do colega logo foi aliviada. Após uns cinco minutos de tensão do ocorrido, o professor pára de escrever no quadro, volta-se para o colega envergonhado e diz:
- Ó, eu perdôo sua brincadeira. Eu não tenho irmã, mesmo! – disse com um sorriso sarcástico.

Mais um ano juntos

Há três anos, eu e meu marido resolvemos comemorar mais um ano juntos indo ao shopping, em Itabuna. Pode não ser o programa mais romântico para um casal, mas, diante das possibilidades que atendiam ao nosso gosto, foi a mais viável.

Comemos uma promoção número 1 do Mc Donald’s, tomamos sorvete e olhamos as vitrines. Ao final do dia, fomos andando até o centro da cidade para pegar o ônibus de volta pra casa. Como já era mais de 19 horas, o ponto estava cheio. Não pudemos ficar juntos. Felipe sentou num lugar paralelo ao meu e, virados para um para o outro, ficamos conversando.

Na saída da cidade, perto do antigo parque Cavalo de Aço, um rapaz se levantou, foi até a cobradora e, puxando uma arma da cintura, anunciou o assalto.

- Todo mundo abaixa, que é assalto – falou de maneira firme, com os olhos petrificados.

Daí pra frente, eu abaixei e, prevendo a futura coleta dos pertences, deixei minha bolsa nos meus pés, no corredor. Fiquei olhando para meu marido, que, preocupado, falava, baixinho, para eu me acalmar. E, por incrível que pareça, eu estava calma. Estava tão calma, que fiquei consolando a garota que estava do meu lado.

De repente, houve um burburinho. Ouvi uns berros e explosões secas. Eram tiros! Fechei os olhos e orei para que nenhuma bala perdida encontrasse a mim ou meu marido. Houve um burburinho e alguém falou ao motorista:

- Vai, vai, acelera! Não pára, não!

- Pronto, seqüestraram o ônibus! – lamentei.

Ao invés dos gritos continuarem, o burburinho foi se acalmando. Eu quis levantar para ver o que acontecia. Ao olhar para Felipe, ele me mandou continuar abaixada. Mas a curiosidade foi maior e, devagarzinho, ergui minha cabeça, atrás da cadeira da frente.

Vi algumas pessoas em prantos, outras assustadas demais para demonstrar qualquer sentimento. E cadê o assaltante? Meus olhos correram pelo ônibus e não o identifiquei. Até que olhei para baixo da catraca. Ele estava deitado, todo mole. Ao seu lado, corria um filete de sangue.

Assim como o rapaz nos surpreendeu, ele também foi surpreendido por um policial civil que viajava nas cadeiras da frente. Querendo arrumar alguns trocados para comprar não sei o que, acabou com uma bala na cabeça. Eu não conseguia parar de olhar para o corpo. Um dos pés dele estava sem a sandália e a camisa um pouco levantada.

Nunca pensei que a morte de alguém iria me trazer conforto. Confesso que foi um alívio ver o assaltante caído, desfalecido. Não é o pensamento “antes ele do que eu”. Mas é que diante daquela situação extremamente desconfortável – que nunca pensei que viveria – a bala que o atingiu na cabeça foi a salvação para todos.

Ao descer no posto da polícia rodoviária, abracei o meu marido e agradeci a Deus por podermos comemorar mais um ano juntos.

No outro dia, li o nome do assaltante no jornal. Ele se chamava Joilson.

O Photoshop de antigamente

Ficamos tão maravilhados com os recursos de manipulação fotográfica de hoje, mas esquecemos que, nos tempos dos nossos avós, isso não era novidade. Os retoques em imperfeições físicas, hoje popularizados em tirar gordurinhas, espinhas, celulites e estrias, começaram a ser usados há décadas e os seus resultados já estiveram presentes em milhares de lares brasileiros.

A expressão “photoshopado” virou sinônimo de alguém que teve seus atributos físicos melhorados digitalmente. E, quando penso em Photoshop, lembro logo da revista Playboy, que faz qualquer baranga virar musa depois de alguns cliques. Mas esse estica e puxa virtual não começou com a era da computação gráfica. Esses dias eu estava lembrando daqueles retratos pintados à mão que, geralmente, tinha na casa do pessoal “muito mais vivido”.

Geralmente de casais (com homens sempre atrás das mulheres, para dar uma idéia de proteção), as fotografias passavam por maquiagens, cabeleireiro, figurino e “cirurgia plástica”. Se a pessoa tivesse orelha de abano, o artista diminuía o exagero natural e deixava o “Dumbo” muito mais humano! No final, todo mundo ficava com cara de boneco de cera.

Uma vez assisti um documentário sobre o assunto, contando que esse tipo de trabalho estava acabando. Para fazer os retratos, um pessoal saía oferecendo o serviço de porta em porta. Aí, quem aceitava emprestava uma foto para servir de base. Sempre perguntavam:

- Que tipo de jóia a senhora quer? Colar, brincos? E o terno do senhor, qual a cor? – sugeria o vendedor.

Às vezes tinha gente que nunca havia vestido um terno. Talvez só na hora do velório, para deixar uma última lembrança mais distinta. Mas, nos retratos, estavam muito bem compostos, chiques de doer. Os cabelos impecáveis nem lembravam a juba da foto que inspirava o trabalho.

Lembro que tinha um retrato desses na casa de minha avó. Eu sabia que era ela e meu avô, mas às vezes era difícil reconhecer a pessoa. Apesar de serem baseados em pessoas reais, pareciam que carregavam a mão na tinta e virava uma gravura qualquer. Igualzinho acontece quando se empolgam “photoshopando” os modelos sem muitas qualidades estéticas.

O retrato pintado que havia na casa de minha avó tinha uma característica interessante. Como não havia nenhuma fotografia dos meus avós juntos, pegaram 3x4 dos documentos de identidade deles para servir de modelo. Só que as fotos eram de épocas muito diferentes. A do meu avô foi de quando ele começou a trabalhar, ainda rapaz. E a da minha avó foi quando ela tinha uns 50 anos! Apesar de terem apenas um ano de diferença, no retrato pintado parecia que 30 anos os separavam.

- É bom que todo mundo pensa que peguei um garotão – dizia minha avó Miúda, fazendo gozação.

Seja o Photoshop de hoje ou de antigamente, ambos deixam os retratados do jeito que gostariam. Seja ao gosto dos clientes ou dos artistas.

O que o dinheiro não faz?

Há algumas semanas estive na capital baiana e conheci o Salvador Shopping. Como jeca do interior, cheguei cedo para aproveitar cada minuto naquele ambiente esterilizado, onde tudo parecia funcionar de maneira orquestrada. Estava me sentindo num filme futurístico, com uma voz dando boas vindas, as portas de ferro das lojas subindo sozinhas, telas de LCD servindo como vitrines, seguranças muito bem uniformizados andando em “Segway’s” (veículos com rodas paralelas, parecidos com patinetes), descargas a vácuo, pisos de vidro...

Enquanto caminhava pelos corredores do Salvador Shopping, minha cabeça tabaroa registrava cada detalhe diferente. Fiquei besta ao ver que naquele local futurístico tinha Ricardo Eletro. A loja era tão bem arrumada que nem parecia pertencer à rede de apelo popular. Andei pelos corredores, admirando a beleza da arquitetura, paisagismo e decoração do local. Pensava: o que o dinheiro não faz?

Aquele império do consumo futurístico me reservava ainda mais uma surpresa. Fui conhecer a loja de diversões eletrônicas. Os brinquedos não traziam nada de novo. Muito pelo contrário, alguns eram até bem velhinhos. Porém, as atribuições de um funcionário do local me atraíram. Pela primeira vez eu vi um narrador de fliperama!

Quando ouvi o nome de um garoto nas caixas de som, acompanhado da descrição frenética sobre como estava se saindo no jogo de corrida, caí na risada. O menino estava em penúltimo lugar, mas o funcionário, com microfone nas mãos, narrava empolgadamente a disputa:

- Vai, “Fulaninho”, dividindo mais uma curva, pronto para uma ultrapassagem...

O pai, orgulhoso, estava ao lado do filho e, sorridente, incentivava o garoto, enquanto o narrador do fliperama descrevia as trombadas do pequeno jogador como grandes feitos. Ao final do jogo, o funcionário ajudou o “competidor” a sair do brinquedo e deu os parabéns pela corrida. O menino, tímido e orgulhoso, saiu de cabeça baixa, com um sorrido nos lábios.

Depois de presenciar a cena, fui refletir sobre o que tinha visto. Narrador de Fliperama! Quem diria... O cara era pago para inflar o ego das crianças e dos pais, que ficam orgulhosos em ouvir os nomes dos filhos nas caixas de som. Entendi isso como a forma de eles demonstrarem que se importam com o que os filhos fazem, destacando-os no meio de todos.

O narrador de fliperama também servia como um reserva da imaginação infantil. Enquanto, nos meus tempos, eu me esbagaçava com a bicicleta, imaginado corridas e obstáculos fantásticos, o cara era pago para empolgar as crianças, aumentando tudo o que estava sendo feito nos jogos. Que graça tinha, eu não sei. Coisas do futuro! Foi aí que voltei a pensar: o que o dinheiro não faz?

Que gosto tem o carnaval?

Sempre fui meio do contra: nunca gostei de carnaval. Enquanto minhas colegas contavam histórias de porres homéricos com direito a hospital ou do cara esfaqueado que passou segurando as tripas, eu falava da praia que tinha curtido ou dos lugares que visitei. Não condeno quem gosta da festa, mas sou bicho diurno, não tenho resistência para virar a noite, tomando empurrão e pisão no pé.
Já cheguei a me considerar meio anormal por não gostar de carnaval. Quando tinha entre 14 e 16 anos, cheguei a sair em bloco. Antes de chegar ao final do circuito já estava pedindo para ir pra casa. Forcei minha natureza e constatei que a muvuca acompanhada de som alto e regada à cerveja não era a minha.
Mas tem gente que espera o ano todo, torcendo para fevereiro chegar e se soltar durante o carnaval. Desligam-se das responsabilidades impostas pelo cotidiano e seguem o contrário do significado da palavra que dá nome à festa. Ao invés de dar adeus à carne, caem nela com gosto! Há ainda aqueles que não se contentam em curtir a folia só uma vez por ano e saem peregrinando, de cidade em cidade, em busca de micaretas.
Durante o carnaval, o povo se esbalta no sexo, drogas e qualquer ritmo que esteja tocando. Às vezes acabam nem aproveitando tanto a festa, de tão esbagaçados que ficam. Aí meu pai fala:
- Carnaval bom era o de antigamente! – suspira saudoso, lembrando de sua época no Cada ano sai pior, de Salvador.
Mas nos tempos dele, já existiam bebida e drogas. Os lança-perfumes não eram usados apenas para deixar os foliões mais cheirosos. O povo fazia o mesmo uso que hoje:
- É pra ficar doidão, vendo fogos de artifício e a cabeça zunir – descreveu um colega meu, usuário freqüente do produto.
Porém teve um amante do lança-perfume que não se deu tão bem. Meu tio conta que, num dos carnavais que pulou, seu tênis arrebentou. Ele jogou o calçado fora e ficou segurando a meia suja. Um garoto, meio zonzo, viu o pano embolado na mão dele e perguntou:
- Ô, véi! É lança? Deixa eu ver um pouquinho! Perverso que só ele, meu tio respondeu que era lança e deu a meia para o rapaz, que ainda agradeceu, fazendo um sinal de positivo com a mão. O resto já dá para imaginar o que aconteceu. Acho que o carnaval daquele amante de lança-perfumes não ficou com um gosto muito bom.

Bundas, Brigas e Bocejo

Está chegando a época menos criativa de todos os programas e revistas de fofoca. Está vindo o período em que as rodas de conversa discutirão as personalidades, comportamentos e potenciais das celebridades instantâneas, que serão esquecidas mais rápido do que preparar um Miojo. Tranquem suas portas e desliguem suas televisões, vai começar mais um Big Brother Brasil!
Já deu para perceber que não sou fã do programa. Detesto os chavões e textos filosóficos do Pedro Bial, tenho nojo dos pseudo-artistas gerados e total aversão ao blá-blá-blá sobre o assunto. Mas, tinha que abordar o tema, pois venho me sentindo acuada diante das ameaças do início do próximo BBB.
Sei que vou enfrentar mais de dois meses de irritação, ouvindo que fulaninho fez, sicrana falou ou beltrano pensou em frente às câmeras da Rede Globo. Está para começar uma novela baseada numa realidade totalmente formatada para atrair a audiência, que mostra corpos seminus, festas e intrigas. Tudo o que já se vê no cotidiano, só que com saradões e gostosonas selecionados pela produção.

De reality show há apenas o nome, pois tudo o que as pessoas vêem é o escolhido com o intuito de atrair a audiência. Os olhares são guiados através da edição e todo mundo sai com a impressão de que está vendo o real. E os programas vespertinos, como o de Sônia Abrão, reúnem seus “especialistas” para ganhar tempo e audiência exibindo recortes do que foi ao ar.

Durante o período do BBB, observo a engenhosidade das pessoas para traçar planos de como ganhariam a premiação. Os espectadores que jamais preencheriam os pré-requisitos para serem um “brother” se imaginam dentro da casa, vivendo as situações e curtindo a fama relâmpago.

O povo se envolve tanto com o show que assistir ao Big Brother Brasil fica mais sagrado que ir à missa dominical. E quem perde a edição do dia, fica angustiado. Ou pede para alguém gravar ou corre para a internet para ficar a par dos grandes acontecimentos. Ai da Coelba se deixar faltar luz no dia da grande final. (Confesso que este é o meu grande sonho sarcástico)

No decorrer do BBB, surgem psicólogos e teóricos de quem vai ganhar o prêmio ou quem está fadado ao paredão. Algumas pessoas acabam conhecendo mais os participantes do que aqueles que aqueles que estão ao seu redor, dividindo o reality show da vida. Sabem que uma é cachorra, um é falso e o outro é gente boa. Mas desconhecem o que seus filhos vêem na internet ou fazem na rua, os sonhos da mulher, as inseguranças do irmão, etc.

O Big Brother transforma todos os meios de comunicação em aliados e os telespectadores em alienados. Mas, o que o programa traz de novo? Para mim, é uma grande janela de vizinha fofoqueira que observa a vida alheia. A diferença é que mexe mais com a imaginação e ambição das pessoas. E quem enriquece com isso tudo? As relações interpessoais é que não.

O tapa

Paixão de criança é uma coisa engraçada. Quem nunca teve um namoradinho ou namoradinha para ficar andando de mãos dadas, brincar juntos, dividir o lanche ou assistir desenhos. Estou falando do amor inocente, quando o fato de apenas achar bonito ou bonita já serve para dizer que, quando crescer, vai casar com aquela pessoa.
Quando eu estava na pré-escola, era apaixonada por um menino. Ele era uma gracinha e também uma peste. Eu suspirava por ele, procurava sempre sentar junto, mas ele nem aí para mim. Cada vez que falava comigo, meu coração vibrava e meu dia estava ganho. Eu me sentia o Charlie Brown, que não tinha coragem de se declarar para sua Garotinha Ruiva.
Certa manhã, na hora do recreio, tomei coragem e fui chamar o meu amado para brincar.

- Quer brincar de casinha com a gente? – perguntei, timidamente, apontando para o grupinho reunido.
Ele, sem que nem pra que, não gostou do convite e me deu um tapa no rosto, daqueles de estalar e deixar a marca dos dedos.

- Brincar de casinha? Eu não sou bicha! – respondeu com raiva.

Minha reação foi ficar parada, assustada. Não chorei por vergonha. Sentei no meu canto, cabisbaixa, refletindo sobre o que eu havia feito para merecer tamanha patada. A paixão acabou naquele momento. Pensei em devolver a bofetada, mas optei por deixar o tempo dar a resposta.

O tempo passou, a minha ex-paixão mudou de escola e nunca mais vi o troglodita. Tomei abuso da cara dele de tamanha forma que, mesmo dez anos depois não fazia questão de lhe dirigir a palavra. Passava por ele como um desconhecido. Apesar de já ter consciência que criança é inconseqüente, não conseguia perdoar aquela agressão gratuita. Precisava de uma vingança.

Certa manhã, estava esperando um ônibus num ponto lotado. Perto dali havia um grupo de pingunços inveterados. De repente, ouvi uma gritaria vinda turma da “meiota”.

- O que é você quer, rapaz? Maconha? – gritou um bêbado escandaloso.

Todos que estavam esperando pelo ônibus voltaram seus olhos para a confusão. Pude ver que, perto dos cachaceiros, havia dois rapazes bem arrumados, já se afastando.

- Eu sei lá onde é que vende maconha. Meu negócio é cachaça! – completou o meioteiro, aos berros.

Os dois rapazes fugiram do bebum barulhento. Andavam rápido, com as cabeças baixas. O povo do ponto de ônibus começou a rir da cena. Como não havia outro caminho a seguir, os playboys maconheiros foram obrigados a passar pela frente das pessoas. Foi quando reconheci um deles. Era o garotinho que havia me dado aquele tapa na pré-escola.

- É você que está aqui, hein? – perguntei, ironicamente.

Ele não me respondeu, mas o seu rosto parecia que pegaria fogo. As bochechas estavam iguais a dois pirulitos de morango gigantes. Ele fez um lado do meu rosto ficar vermelho. Eu fiz os dois lados dele ficarem como brasas. Naquele momento, senti-me vingada.

Desprevenida

Vira e mexe, na capa de revistas ou sites especializados em celebridades, aparece alguma famosa clicada sem calcinha. Desde artistas internacionais, como a “surtada” Britney Spears até as brasileiras, como Juliana Paes. As fotos das famosas sempre com alguma tarja ou balãozinho cobrindo as partes pudendas logo viram anexos de e-mails.
Lembro da primeira vez que ouvi falar de uma artista que não usava calcinha: Monique Evans. Isso foi nos saudosos anos 1980, quando a sexualidade (disfarçada de sensualidade) era exibida como exotismo brasileiro. Pensei: “que porca descarada”. Na minha mentalidade infantil, o uso da calcinha era mais que uma peça de roupa, era uma prova de dignidade.
Com o passar do tempo, fui percebendo que não usar calcinha era mais comum do que eu imaginava. Algumas famosas declaravam abertamente que nem sempre usavam a peça. Até mesmo namorada de presidente apareceu com “tudo de fora”, num camarote de carnaval. “Marca a roupa”, dizem umas. “Excita os homens”, contam outras.
Ao falar de alguma mulher que foi flagrada sem calcinha, geralmente as pessoas (principalmente do sexo masculino) imaginam alguma boazuda. Porém, a verdadeira protagonista da história nem sempre possui tais atributos físicos. E a visão do flagrante também pode não ser uma das melhores para se ter na vida.
Minha avó tinha uma amiga, que adorava ir bater papo com ela. A senhora usava sempre saias compridas, sentava-se comportadamente na poltrona da sala e, nas suas conversas, trazia o boletim da vida alheia. Todo mundo sabia que ela não usava calçola. Segundo a própria, peça incomodava, pois esquentava onde não devia.
Certo dia, a “tia descalçolada” chegou na casa da minha avó, toda sem jeito, andando torto, com os cotovelos arranhados.
- O que foi isso? – perguntou minha avó.
- Miúda, nem te conto o que aconteceu comigo! – respondeu a senhora, introduzindo o assunto.
A mulher terminou de chegar, sentou-se na poltrona, como de costume, limpou os braços e revelou o que havia acontecido com ela:
- Eu estava descendo a ladeira, pisei em falso e escorreguei. Quando estava no meio da queda, lembrei que estava desprevenida! – completou a mulher.
Minha avó caiu na risada. Dava para ver cada dente que faltava em sua boca de tão larga que era a gargalhada. E, em meio a lágrimas e soluços, perguntou:
- Sim, e que jeito você deu?
- Ah, antes de cair no chão, ainda no ar, joguei pro alto o que tinha na mão e coloquei a saia no meio das pernas! – explicou a abolicionista de calçolas. Ao ouvir a história, imaginei a cena ao estilo do filme Matrix: A velha caindo, parando no ar, desfazendo-se do que ocupava suas mãos para cobrir suas vergonhas. Então, não agüentei e acompanhei minha avó na risada. E, recompondo-me pensei: “Eis o preço da tal liberdade”.

A Testemunha

Era o final de uma tarde de domingo quando o tédio superou a preguiça e impulsionou o meu corpo a dar uma volta pela Avenida Soares Lopes. Ao dizer que pensei em “dar uma volta” percebe-se que meus recursos financeiros no momento não estavam lá muito abundantes. Mas os ossos já doíam de tanto ficar no sofá. Estava quente, o céu e o mar limpinhos. Tinha que aproveitar os últimos raios daquele Solzão bonito.

Acompanhada do meu marido, saímos sem rumo certo. Sentir a brisa nos nossos rostos, ver a criançada brincando de bicicleta, as senhoras metidas a “cocotinhas” caminhando com suas roupas de ginástica, os casais de namorados tomando sorvete... Este foi o momento em que a contemplação do cotidiano caiu por terra, dando lugar para a gula.

Estava quente, passei o dia inteiro enfurnada em casa, um sorvete não nos faria mais pobres. Sim, mas cadê o dinheiro? Lá fomos nós para calçadão, rumo ao Banco do Brasil para sacar a fortuna de dez reais. Com eu disse, a grana estava curta, não podíamos esbanjar. Seria só uma bolinha para saciar a vontade e adoçar o dia.

Saímos da agência meio apreensivos. As ruas estavam vazias, só ouvíamos os nossos passos e respiração. Cada metro que avançávamos era uma fuga daquele deserto ameaçador, povoado de trombadinhas ocultos. Quando passamos em frente à Associação Comercial de Ilhéus, vimos diversas VHS espalhadas pelo chão. “Arte de algum vândalo” – pensamos.

A rua estava caracterizada como uma perfeita cena de crime. Algumas VHS tinham as fitas magnéticas puxadas, outras estavam totalmente desmontadas, escangalhadas. Mas uma me chamou atenção, pois estava bem no meio da rua. Fiquei curiosa para ver o título do filme e, que ironia: A Testemunha.

Aquela VHS trazia em seu conteúdo um filme de 1982, que tratava de um assassinato testemunhado por uma jovem e seu filho, que passavam a ser protegidos por um investigador. Já a fita testemunhou um crime contra o patrimônio público, a cultura e a história. Ela não tinha quem a protegesse, havia sido jogada à sorte por causa do DVD. Virou lenda e lixo.

Fiquei pensando naquela testemunha ali no meio do asfalto. Que final triste teve a pobre VHS. Ela tinha a mesma idade que eu e estava sendo rotulada como velha! Um dia era disputada nas prateleiras da locadora e, no outro, estava estendida no chão, decrépita. A tecnologia foi mais impiedosa que o tempo. E a ignorância em descartá-la daquela forma, maior ainda.

A fita estava sendo a testemunha de como nossa sociedade vira as costas para aquilo que um dia teve valor. E não podemos achar que é diferente com os seres humanos. Como dizia a minha avó: “Quem foi é a mesma coisa de nunca ter sido”.

Papo de Vendedoras

É respondermos sim para um “Posso te ajudar?”, que os vendedores entram em nossas vidas e auxiliam a determinar como vamos gastar o nosso suado dinheirinho. Contamos sempre com a experiência daquela pessoa em lidar com diversos materiais e marcas, mas como saber se realmente vão nos ajudar a comprar aquilo que necessitamos ou cairá bem à nossa silhueta? Só sabendo o que se passa na cabeça daquelas criaturas alimentadas pelo nosso consumismo. Uma vez eu ouvi.
Estava voltando para casa, num ônibus lotado, aqueles de final do dia. Duas mulheres uniformizadas sentaram atrás de mim e começaram a conversar:
- Ai, minhas pernas! Não agüentava mais ficar em pé na porta daquela loja! – lamentou uma.
- O pior é que sem vender nada. O povo não tem dinheiro! – disse a outra mais pessimista.
- É. E o que me dá mais raiva é aquela gente que entra, faz a gente descer a mercadoria e depois diz que vai passar depois. Parece que não sabem o que quer – desabafou a mais cansada.
- Não, triste mesmo é aquela meninada de colégio, que em época de prova, sai mais cedo e tem como diversão ficar provando roupas. Eu não atendo! – falou a outra, com um tom agressivo.
Ao ouvir esta frase eu fiz uma viagem no tempo e lembrei que as minhas colegas adoravam fazer isto. Eu, no máximo, as acompanhava nas lojas de perfume para sair cheirosa. Não imaginava o quanto isto irritava as vendedoras. Então, fui informada que as colegiais estão se superando:
- Ah, menina! Esses dias uma turma chegou lá na loja com uma máquina digital. As meninas entravam no trocador, batiam as fotos e se picavam.
- Deve ser para colocar no orkut! – deduziu a outra.
Eu arregalei os olhos ao escutar esta nova modalidade de azucrinar os pobres comerciários. Além de não levarem a mercadoria, as individuas ainda tiram fotos para se mostrarem aos seus “miguxos”. É muita cara-de-pau!
Fiquei mais curiosa com o desfecho da conversa, ajeitei-me junto à janela do coletivo e apurei os meus ouvidos:
- Por isso é que eu gosto de atender homem. Eles chegam, não perguntam o preço nem provam direito e já levam. Tem uns que medem a cintura da calça pela grossura do pescoço! – falou a vendedora, com experiência.
- Mulher é que é fogo. Fica naquela indecisão, um tira e bota, parecendo que vai achar o sapatinho de cristal! – ironizou a outra.
- Comigo não tem essa. É só colocar qualquer coisa e eu digo que está lindo. Eu me livro logo pra ver se pego outro cliente. Com aquela comissão que eles me pagam, o negócio é vender o quanto der – disse a experiente, demonstrando como aplica sua esperteza. O papo das vendedoras rendeu, desabafaram suas frustrações, falaram de suas famílias, de não ter tempo para ver os filhos crescerem, do cansaço, das cobranças e dos clientes mal-educados. Quando desci no meu ponto e caminhei para casa, fui digerindo aquela conversa. Conclui que o “Posso te ajudar” pode ser um “Ajude-me, por favor”.

E eles ainda disseram sim

Visualizem uma cerimônia de casamento: igreja ornamentada, noivo ansioso, música suave, pais orgulhosos, uma noiva enfeitada e emocionada. Nada de mais, não é? Mas, o que se espera do celebrante? Palavras de incentivo, bênçãos e votos de felicidade perpétua, certo? Pois é, não foi bem isto o que eu presenciei.

Há alguns dias fui convidada para um casamento. Não sou daquelas que se debulham em lágrimas, mas é sempre bom estar entre pessoas felizes, comemorando uma união a qual se espera durar “até que a morte os separe”. Mas parecia que o padre não concordava muito com este conceito de alegria, fazendo considerações totalmente inversas ao imaginável.

O sacerdote não conteve suas piadas machistas e superficiais a respeito do matrimônio e até disse que preferia estar entre os seus livros que casado. Começou a cerimônia com a seguinte anedota: “Sabiam que a visão do homem vai diminuindo depois dos vinte anos? É para não ver a mulher envelhecendo”. Alguns homens riram, as mulheres nem tanto. Já os noivos, espero não terem absorvido esta tolice, uma vez que o líder espiritual estava ali para dar as últimas orientações para o sucesso do enlace.

Após uma série de comentários indelicados, o padre deu sua dica básica para o sucesso de qualquer casamento: “Ir à missa todos os domingos”. Se for uma celebrada por ele, aí é que a união afunda de vez! Imaginem cada domingo ouvir um: “nossa, sua mulher está um caco” ou “como está suportando esta menina feia?”.

Por mais que seja brincadeira (de gosto duvidoso), considero que existam palavras mais adequadas para um momento tão único e solene. O casamento é um mandamento divino. Está em Gênesis 2: 24: “É por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa”.

Talvez o padre não soubesse que, além de ser um mandamento de Deus, há mais bênçãos no casamento do que apenas ter filhos. Como ele poderia saber o que é escolher alguém para se unir e virar um único ser? Como um cara que nunca casou vai saber o que é dormir aninhado, acordar sabendo que tem do seu lado uma pessoa que estará contigo em qualquer luta. Como ele poderia falar sobre paciência, companheirismo, altruísmo e sexo. Ora, é preciso ter satisfação em todas as áreas! Mas, como esperar conselhos matrimoniais daquele que diz preferir seus livros?
A maioria das palavras de bênçãos proferidas durante o casamento foi lida, quase de maneira atropelada. O padre balbuciou o que estava escrito no seu “manual” e encerrou a cerimônia sem deixar uma mensagem espontânea positiva. Passou apenas o básico: amar e respeitar até que a morte os separe.

E, depois disso tudo, os noivos ainda disseram sim.

Monga e Eu

Quem nunca foi a um Parque de Diversões e se deparou com aquele trailer horripilante da incrível mulher que se transformava em gorila? Ou se nunca viu a atração, já deve ter ouvido falar. Há ainda aqueles que já viram, mas nunca entraram. Eu me pelava de medo da Monga, mas consegui superar.
A minha primeira lembrança da Monga é de quando tinha uns cinco anos e dei chilique para ir embora ao ouvir a locução nefasta: “Mongaaa, a mulher-gorila”. Os desenhos do reboque da atração representavam uma mulher de seios fartos, com um biquíni mínimo, de estampa africana. Depois, tinha essa mesma dona sendo mordida pelo Drácula (Nunca entendi isto. Acho que ele cansou da Transilvânia e foi passar umas férias na África) e, em seguida, a criatura meio mulher, meio símio, concluindo com um macacão sanguinário.

Para uma criança pequena, aquilo era a representação do inferno. Quando colocavam a propaganda da Monga nas caixas de som, eu ia embora mais cedo. Meus pais adoravam, pois ajudava a conter minha sede de brinquedos. Porém a monstrenga povoou muitos dos meus pesadelos.

Com o passar dos anos, o meu medo de Monga foi sendo substituído por uma curiosidade tão grande quanto. Quando tinha 14 anos, um namoradinho me levou ao Parque que tinha a mulher-gorila. Eu senti um repente de coragem e perguntei: “Vamos?” O meu então namorado disse que era besteira (devia estar se borrando de medo), mas cedeu à minha insistência.

Minhas mãos suavam já na fila. Quando entrei no reboque apertado e malcheiroso, vi que não tinha escapatória. O show começou com uma mulher com os peitos de fora (não tão gostosona quanto a do desenho do trailer), que dançou ao som de um axé, entrou em transe e começou a se transfigurar. A narração fazia meu coração sacolejar. Os olhos da moça ficaram brancos, pêlos foram se espalhando pelo corpo. Ela começou a se debater e a locução pedindo calma. Quando abriu a jaula, eu já estava longe. Eu e meu namoradinho “corajoso”.

Assistir a uma apresentação de Monga virou questão de honra. Cresci, aprendi que aquilo era uma ilusão de ótica (assista a “Lisbela e o Prisioneiro”), mas precisava superar o trauma. Meu marido foi quem me apoiou e acompanhou na atração. Tinha que vencer a mulher-gorila, pois ela era o meu fantasma da infância.

Ao adentrar no trailer, revivi o desespero da primeira experiência. Então, o show começou. A Monga desta vez estava mais composta e dançava ao som de Ivete Sangalo. Ela foi induzida ao transe e começou a transfiguração. Mantive os olhos bem abertos, apesar do escuro e da luz estroboscópica. Quando a jaula se abriu, vi uma figura saindo do lado, espalhafatosamente, batendo nas chapas de ferro da parede. O povo gritava e eu comecei a rir. Tentei agarrá-la, porém a criatura se esquivou e voltou para onde saiu. Contida a fera, as luzes de acenderam, ela se “destransformou” e o show terminou.

Eu me senti uma heroína. A Karol, de cinco anos ficaria orgulhosa da minha bravura. Acho que temia mais a locução tenebrosa, estilo anos 70, tendo com música de fundo o tema de Guerra nas Estrelas. O segredo da minha superação foi resistir ao desconhecido.Monga perdeu seu encanto. Agora, quando a mulher-gorila vem à cidade, prefiro ficar de fora, dando muita risada da cara dos fugitivos. Vendo o ciclo se repetir.

Mendicância Sistemática

Chega de “Eu podia estar matando, eu podia estar roubando”. Estamos na era da mendicância por bilhetinhos. E não são bilhetinhos ordinários, com caligrafia torta em papel amassado. São digitados, xerocados e plastificados! Melhores até que muitos cartões de visita. Bem feitos e duráveis para garantir muitas esmolas por tempo indeterminado. Os pedintes sistematizaram a esmolinha.

As súplicas são bem escritas, tem estilo! Certa vez, no ônibus, deparei-me com a seguinte: “Prezado amigo, sou deficiente mental e Preciso da sua ajuda para sobreviver. Deus te ilumine”. Isto é uma aula de marketing! O cara mostra o produto, apela para o sentimental e ainda faz com que se sinta especial antes mesmo de contribuir. E, depois de entregar os cartões, ainda ratifica: “Qualquer dez centavos serve, porque o pouco com Deus é muito”.

Imagino o que muitas pessoas devem estar achando desta minha análise: coração de pedra, coitadinho do cara, deficiente, precisando comprar remédios, precisando da sua ajuda para sobreviver. Aí é que vem o mais engraçado. Depois de assistir o pedido de caridade, a moça sentada ao meu lado resmungou algo, reprovando a ação do pedinte. Começamos a conversar sobre o fato do rapaz, visivelmente doente mental, receber o benefício do INSS e ainda sair por aí pedindo. E ela veio com a bomba:

- Esse aí tem família, já trabalhei na casa da tia dele. O povo só deixa ele com metade da aposentadoria. Gasta tudo com mulher. Ele mesmo ficava querendo coisa comigo, me oferecendo dinheiro. Pedi pra sair. Depois ele me atacava, e aí? Como consertar o malfeito?

Eu comecei a rir. Não da cara da mulher, mas da situação. O rapaz estava ali, no ônibus, complementando sua quota da luxúria. Afinal, o seu benefício estava sob administração de sua família, o resto, ele que se virasse. E se virou! Confeccionou seus bilhetinhos, pegou seu cartão de gratuidade – já que é deficiente e não paga passagem – e saiu por aí, garantindo os trocados para suas “coisinhas”.
- Eu saio do outro lado da cidade para ganhar meu salário mínimo e ele ganha o dele sem fazer nada e ainda se fazendo de vítima – completou a mulher revoltada.

Mas é isso mesmo, quem não chora não mama. No caso do nosso “Prezado Amigo”, o ditado se aplica literalmente. Porém ele não é o único pedinte que faz uso dos eficientes cartões de esmola. Inúmeros já passaram pelas minhas mãos, distribuídos acompanhados de olhares tristes e sussurros melancólicos. Cria-se todo um clima para garantir a eficiência do negócio.

Certa vez um rapaz me passou um bilhetinho mais ou menos assim: “Tenho quatro irmãos pequenos. Eles precisam de mim para viver. Aceito qualquer quantia ou vale transporte”. Foi aí que descobri que os “dizeres” estavam sendo importados. Onde é que em Ilhéus tem vale transporte? Aqui se usa cartão eletrônico, o famoso Sistema Inteligente de Transporte. O cara simplesmente copiou o pedido de um pedinte forasteiro e estava “jogando o barro na parede pra ver se cola”.

Noutra oportunidade, estava numa clínica, esperando ser chamada pelo médico, quando um senhor me abordou com os famosos bilhetinhos esmoleiros. Este caso foi ainda mais curioso, pois havia lacunas para ser preenchidas de acordo com a forma de mendicância: “Sou surdo. Vendo estes ___ para sobreviver por apenas ___”. Outra esmola importada, só que este foi displicente. Foi tão afoito que nem percebeu que o seu empreendimento estava sendo mal utilizado. Talvez tenha que pedir uma consultoria ao primeiro que citei. Ele, sim, sabe como vender o seu peixe!
É, a globalização afetou até mesmo a forma de esmolar, sistematizando o trabalho, poupando tempo e rendendo mais. Se estas pessoas tivessem um pouco mais de juízo, sairiam ministrando palestras pelo Brasil afora. Recebendo o pagamento após distribuir seus bilhetinhos, claro!

RG Virtual

Os termos “site”, “e-mail”, “MSN”, “orkut”, “blog”, “You Tube” viraram tão cotidianos que são poucos aqueles que ficam quebrando a cabeça para saber o que significam. Pelo contrário, ao conhecer uma pessoa, já vamos trocando nossos endereços eletrônicos, indicamos comunidades interessantes, comentamos os vídeos engraçados... Caímos na rede mundial de computadores, nos embolamos e nem sabemos como entramos. Compramos, vendemos, conhecemos pessoas, discutimos, guardamos lembranças, exibimos nossas vidas e criamos outras que gostaríamos ter.
Apesar de toda essa democratização da internet, nem todo mundo tem acesso regular ou facilidade com a interface virtual. Mas a necessidade de se integrar é tão grande e urgente que já existe um comércio para fazer com que esses “analfabetos digitais” façam parte desse ciberespaço. Há Lan Houses que criam perfis no orkut e MSN por apenas R$ 1,00! Em resumo: emitem seu RG virtual. São uma mistura de Dora (a escrevedora de cartas do filme Central do Brasil) com Secretaria de Segurança Pública.
Passando toda a maravilha de observar o espírito empreendedor dos donos das Lan Houses, surge o questionamento: como essas pessoas que mal sabem abrir seus e-mails irão administrar seus mundos eletrônicos? Ah, não faltam ajudantes! É igualzinho às locadoras de videogame. Sempre há um “rato” que sabe os macetes de passar as fases e acaba jogando um pouco às custas dos outros.

É difícil encontrar numa Lan um camarada solidário, que ensina seu pupilo a manusear o mouse, preencher os campos corretos ou efetuar buscas. Geralmente fazem, tomando os periféricos, com a maior simplicidade e rapidez: “faz assim, clica aqui e pronto”. O ingênuo forasteiro virtual fica com olhar perdido, sentindo-se mais burro e dependente que antes. Daqui a pouco vai surgir o “alfabetizador digital solidário”. Podem até usar o slogan: atendimento personalizado, custando muito menos que um curso de informática! Hum, será que já pensaram nisto?