Passear no cemitério nunca esteve entre as minhas opções de lazer favoritas. Quando pequena, já tive medo de algum defunto enterrado pertencer ao balé do clipe Thriller e resolver puxar meu pé. Também tinha medo de pegar piolhos de defunto e ter que raspar a cabeça. Hoje, tenho medo dos maloqueiros que utilizam o local como esconderijo.

Durante o último dia de finados, andei refletindo sobre o hábito de visitar a última morada dos falecidos. A reverência aos mortos, muitas vezes, é maior que aos viventes. O povo leva flores, paga para limpar e caiar os mausoléus, faz orações pela alma do defunto, choram, conversam... Em minha opinião, se investissem o tempo e dinheiro por quem ainda está por aqui, sofrendo as dores do mundo, talvez a recompensa fosse maior.
Não quero discutir os costumes e nem julgar quem está certo ou errado. É que nunca vi muito sentido em cuidar de algo que não precisa de cuidados. Aprendi que, quando morremos, o nosso corpo volta a ser pó e, se andarmos direitinho por aqui, a nossa alma volta para Deus. Assim, não há mais nada a fazer pelos mortos, eles mesmos se acertam com os vermes, as bactérias e com o Pai Celestial.
Vendo o povo indo e vindo dos cemitérios, minha mãe e eu começamos a trocar umas idéias sobre a data. Ela me disse que, antigamente, era um dia solene, de muito respeito, silêncio. Não havia festa e os pais não podiam bater nos filhos. Quando perguntei o porquê, ela me disse que era tradição, igual ao feriado de Sexta-feira da Paixão, só que podendo comer carne.
Assistindo os noticiários e passeando pela internet, vi que o dia de finados também virou opção de passeio. Nas grandes cidades, os túmulos das celebridades são visitados pelos fãs. E não precisa ser um Ayrton Senna para receber flores e homenagens. Os mártires eleitos pela mídia também foram prestigiados, como a menina Isabella e Eloá. A última até o velório virou atração turística, com milhares de homens, mulheres, idosos e crianças se espichando para conferir o que estava dentro do caixão.
Enquanto eu tenho uma relação de indiferença com os cemitérios, minha mãe tem algumas boas lembranças. Desde pequena ela me conta que, quando criança, costumava brincar entre os mausoléus e lápides. Havia um parquinho no local, onde se divertia com os coleguinhas. Ela me diz que ficava alegre quando morria alguma criança, os chamados anjinhos.
- Se a família fosse rica, levava a meninada para tomar refrigerante. Se fosse pobre, davam refresco para a gente – lembra minha mãe, com certo saudosismo.
Depois de ouvir essa, fiquei pensando nas pessoas que achavam que apenas os góticos e “darks” adoravam passear nos cemitérios.


