domingo, 18 de janeiro de 2009

Livros do lixo

Começa o ano e começa a correria pelos materiais escolares. Como Deus ainda não me permitiu um herdeiro, só acompanho as batalhas dos meus amigos e amigas que precisam resolver este desafio caro. Lembro quando meus pais pegavam a lista dos livros que tinham que comprar. Sempre ouvia reclamação de que, a cada ano, pediam mais coisas.

O que eu gostava mais é quando compravam os livros e cadernos novinhos. Lembro do cheiro de cada um, a textura das páginas. Ficava imaginando como iria aprender aqueles assuntos que não faziam o menor sentido para mim. Tinha pena até de escrever o meu nome para não borrar o papel. Mas isso só durava até as primeiras semanas de aula, quando eu já enchia tudo de adesivo e desenhos coloridos.

Minha mãe sempre me ensinou a zelar pelo meu material. Ficava pirada quando emprestava alguma coisa e não me devolviam:

- Cada um precisa cuidar do que é seu. Se seus colegas não têm, é porque são desmazelados - dizia em tom de conselho.

Mas, o cuidado com meus livros andava junto com a economia. Todos eram muito bem encapados. Mas, ao invés de plásticos com bichinhos e personagens da Disney, minha mãe insistia em forrá-los com sacos de lixo azuis. Aí, eu virava motivo de gozação:

- Olha, os livros de Karol! Ela achou no lixo! – riam os meus coleguinhas, enquanto eu tentava arrumar uma resposta para calá-los:

- Os seus é que foram achados no lixo! Olha como estão sujos e cheios de orelhas!

Cada ano era a mesma coisa. Eu curtia os meus livros novinhos até minha mãe chegar com os famigerados sacos de lixo azuis.

- Ô, mãe, compra um forro diferente. O povo lá da escola sempre ri da minha cara – eu suplicava.

- Minha filha, o plástico da livraria ou o saco de lixo cumprem com a mesma função. Deixa o povo rir, isole – ela me respondia como se fosse simples assim e as crianças não fossem extremamente cruéis.

Apenas duas vezes eu consegui fazer minha mãe não encapar os meus livros com os sacos de lixo. Na segunda série, consegui convencê-la a comprar um papel dos Ursinhos Carinhosos.

- Mas aí não é transparente, você não vai saber qual livro é – replicou minha econômica e prática genitora.

- Não tem problema, coloca uma etiqueta com meu nome e o do livro – respondi, dando a solução.

A outra vez que consegui forros mais dignos para meus livros foi na sétima série. Como saí para comprar o material com o meu pai, que sempre foi economicamente mais maleável, empurrei uns plásticos melhores no meio da compra. Foi a minha salvação de mais um ano pagando mico.

Depois disso, não encapei mais meus livros. Até tentei passar contact em um, mas embolou tudo, ficou cheio de bolhas. Segui parcialmente os conselhos de conservação da minha mãe. Tomei os devidos cuidados para não me constrangerem e nem parecer que vieram do lixo.

2 comentários:

Bel disse...

Os meus eram encapados com papel metro (na época chamado de papel pardo) e também me deixavam aflita com as zoações, e envergonhada, claro. Eu não era tãaaao cuidadosa, os meus viviam de orelha. Mas quando chegou na vez dos filhotes, eu cuidava como se fossem meus, antes de entregar a eles: Passava durex nas beiradas para não deixar enrolar, fazer orelha e forrava com contact transparente, tentando acabar com o meu trauma de infância.

É, essas coisinhas marcam a gente!

Aline Mororó disse...

gentem... minha mãe xerocava meus livros de piano e fazia as capas com papel madeira, pensa aí.
Depois não entende pq eu faltava tanto as aulas.
Já bastava o trauma de não ter uma mochila Company e ter que carregar os livros numa mochilinha horrorosa que minhas tias trouxeram da feira hippie.
Traumas de infância.