segunda-feira, 27 de abril de 2009

O resgate do pintinho


Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, foi a mim que fizeram. Mateus 25:40

Não tem jeito! Todas as vezes que conto esta história, alguém de mente fértil (provavelmente com a ajuda de adubo) vem com uma piadinha dúbia sobre o pintinho resgatado. Mas o salvamento foi do filhote da galinha, aquele de penas e bico. Porém, apesar do nome protagonista gerar graça, o ocorrido me ajudou a observar o quanto os seres humanos podem ser altruístas e misericordiosos. Mesmo em relação a um bichinho cujo cérebro não atingirá ao tamanho de uma ervilha e poderá nos servir de alimento.

Era um sábado lindo, quente e convidativo a um banho de mar ou piscina. Meu marido e eu não pensamos duas vezes em fazer valer as mensalidades pagas a AABB. Pegamos o ônibus que para justamente a duas quadras do clube e, quando estávamos a menos de 100 metros do nosso destino, avistamos o pobre pintinho, piando desesperadamente em frente a um portão.

Infelizmente, eu tenho ornitofobia (Ê, palavra nova! Indica medo de aves) e não tinha coragem de tentar pegar o bichinho. Então supliquei:

- Felipe, acode o pintinho! – solicitei ao meu marido que tem medo de outros bichos.
Prontamente, ele correu atrás da avezinha, que também correu dele (presumo que deveria ter antropofobia. Rá! Outra palavra nova, que significa medo de pessoas). A perseguição durou umas quatro idas e vindas, até o bichinho tentar alçar um voo e ser apanhado pelo meu marido gentil.

Com o pintinho em mãos (eu avisei que a história era meio dúbia), começamos a arquitetar o plano para devolvê-lo à sua mãe e irmãos, que piavam e cacarejavam do outro lado do muro. Tentamos afastar as bandas do portão, e quando meu marido abaixou para passar o bicho pro outro lado, um pinscher e um poodle deram as caras, com seus dentinhos afiados, prontos para tirar uma lasquinha dos dedos caridosos de Felipe.

- Putz, tem cachorro! E agora? – hesitei.

Apesar de ter medo da ave, minha angústia em resgatar o desorientado pintinho era que se continuasse na rua, corria o risco de ser atropelado, ou estraçalhado por um cachorro. Para evitar a tragédia anunciada, procuramos algum espaço que desse para passar o filhotinho, que continuava piando a plenos pulmões. Afinal, se o pinto saiu, ele também teria por onde entrar!

Para solucionar o drama do pintinho, pensamos até em jogá-lo por cima do muro. Porém, a emenda poderia sair pior que o soneto. Vai que o bichinho quebra uma pata ou cai de cabeça? Mas, no cantinho inferior do portão de pedestres, havia um buraco pequeno, que talvez coubesse o filhote. Felipe tinha que ser rápido e preciso. O pinscher e o poodle estavam de butuca do outro lado, ávidos por qualquer vacilo.

Acocorados na calçada, iniciamos a devolução da pequena ave ao seu lar e família. Bem, eu estava participando dando apoio psicológico e incentivando a empreitada. Ao passar a cabeça do pintinho, Felipe não pensou duas vezes. Apertou levemente as asinhas do bicho e empurrou o resto pelo buraco. E, finalmente, o salvamento foi concluído.

Com o sentimento de dever cumprido, seguimos nosso rumo. Não descobrimos a cura da AIDS nem conseguimos a paz mundial. Mas, fazer o bem quando somos capazes de fazê-lo, enobrece qualquer um.

2 comentários:

Aline Mororó disse...

Essa história me fez lembrar de uma parecida que aconteceu comigo.
Quando eu era pequena ganhei 6 pintinhos de presente e coloquei eles para "dormirem" dentro de uma caixa de sapato, qndo voltei para casa estavam todos na rua piando alucinadamente, fui socorrer a pintaiada mas dois foram atropelados.
Depois desse episódio os pintinhos foram morrendo cada um de forma mais bizarra: um eletrocutado pela geladeira, outro esmagado pela casa de pau que fiz, outro morreu pisado pela empregada, foi um pintocídio terrível!
ler essa história me lembrou de outros traumas de infância, será que boto isso no meu memorial?

Bel disse...

Ah, essa história está mal contada.
Você esqueceu de dizer com todas as letras que Felipe ficou um tempão com o pinto na mão, (rima infeliz!) tentando encontrar o buraquinho. E você gritando: "ali embaixo, Felipe, o buraco é mais embaixo!!!"
Aí, depois de muito procurar, Felipe encontra o orifício para enfiar o pinto, que não queria entrar, mas ele (Felipe) foi firme e meteu o pinto no buraco!

Não pode esquecer de dizer também que tinha um monte de gente olhando Felipe com o pinto na mão e você estressada, gritando, afinal de contas, você tem medo de pinto.

Enfim, é bom esclarecer o público.

Hahahahahaha

Beijoooooooooo