Já faz mais de uma semana que os juízes do Superior Tribunal Federal decidiram que para ser jornalista não precisa mais de formação superior específica. Minha caixa de e-mails vem recebendo inúmeros textos que execram e aplaudem a decisão dos magistrados. Eu, o que penso? Sei lá. Acho que com diploma, ou não, a seleção natural acaba agindo.
Estou jornalista há quatro anos. Há 10 anos, queria ser veterinária. Mas, um parto complicado de uma cachorrinha que tive fez com que eu repensasse a ideia de lidar com bichos, sangue, sofrimento, etc. Aí, uma amiga minha sugeriu: faz jornalismo. Eu sempre gostei de escrever, era boa em redação, curiosa. Mas o curso só tinha na UFBA e a condição financeira de meus pais impedia de cogitar uma faculdade particular.
Bombei na Federal. Perdi logo na primeira fase. Mas ainda tinha a UESC, cujo curso era de Rádio e TV. Eu, com 17 anos recém completos, tinha que ser aprovada em alguma coisa. Minha mãe já tinha me dado o ultimato: não vou pagar cursinho, vai ter que trabalhar. As matérias de peso do vestibular eram aquelas que eu tinha maior afinidade. Além disso, caso passasse, estaria livre das exatas para sempre! Fiz as provas sem pretensão e fui surpreendida pela ligação de minha mãe, chorando de alegria.
Desde que prestei o vestibular, tive consciência de que o curso de Comunicação Social era com habilitação em Rádio e TV. Digo isso porque, no quarto semestre, uma colega descobriu que não poderia ser publicitária. A princípio, entrei achando que iria escrever roteiros, gravar vídeos, programas de rádio. Tomei um susto quando tive que ler Walter Benjamim, Pierre Levy, Manoel Castells, Saussure...
Mas também tinha um professor bem legal: Dirceu Góes. Foi quem abriu os meus olhos para o jornalismo. Ele corrigia os textos com carinho e senso crítico. Sempre dava força para a galera e fazia com que valorizássemos os profissionais grapiúnas, que não alisaram banco de universidade e tocaram a imprensa regional no peito e na raça.
Também recebi um grande incentivo do meu tio-avô, Manoel Victal. Ele, que começou aqui em Ilhéus como repórter de rádio, na década de 1960 foi para São Paulo, onde acabou virando repórter, editor de polícia, sub-secretário de redação e secretário gráfico do Notícias Populares (aquele que se espremesse saía sangue). Logo no primeiro semestre de curso, ele me encomendou uma matéria sobre Ilhéus para colocar no jornal de bairro que fundara após a aposentadoria.
Ao longo do curso, acabei meio distante do jornalismo. Foram apenas dois semestres e eu achava que não tinha muita vocação. Gostava mais de inventar histórias malucas do que contá-las de forma imparcial e ética.
Aí, quando estava no último semestre de Comunicação, minha mãe me deu o novo ultimato: vai formar e vai ter que trabalhar. Não tinha jeito. Só que agora eu queria muito. Ela conhecia Bonnie Clayver, locutor da Gabriela FM, e me ofereceu para acompanhá-lo na rádio, aprender sobre o dia-a-dia, como funciona na prática.
Fiquei quase um mês de estagiária de Bonnie, desaprendendo tudo o que tinha lido nos manuais. Os spots eram escritos à mão, no verso de panfletos das lojas. Os textos sem barras de respiração. Muitos locutores reclamavam comigo, pois achavam bobagem. Eu coloquei meu academicismo de molho e tentava conciliar os meus conhecimentos teóricos com a vivência dos profissionais.
O pessoal acabou gostando do meu trabalho. Nunca criei confusão com ninguém e procurava absorver tudo o que era positivo com aqueles que sabiam se virar muito bem na frente de um microfone apesar de não conhecerem as Teorias da Comunicação, Estudos de Recepção, Semiótica, e lá vai. Então, por três meses fiquei responsável pela produção e redação do Informe 102,9 e Gabriela News. Com Marcos Bezerra, aprendi a fazer radiojornalismo de oposição sem tomar um processo sequer, utilizando os fatos e não as opiniões pessoais.
Só que a cabecinha de vento da recém formada queria mais, queria o primeiro mundo. A ilusão do progresso me levou a Curitiba, após casar com o meu namorado que arrumei no curso de Comunicação Social. Depois de quatro meses gastando sola de tênis e muito chamex com currículos, abandonei o curso de inglês que dava aula e dei adeus para o frio infernal. Voltei para a minha terra com o pescoço mais mole.
Em Ilhéus, acabei trabalhando na campanha de Valderico Reis de domingo a domingo em troco de um salário mínimo e uma promessa de emprego. Na loucura do processo eleitoral, conheci Solon Cerqueira. Foi quem perguntou o que eu fazia na rádio escuta se tinha curso superior e experiência. Ao longo do processo, enfiaram-me na sala de edição para produzir os vídeos da campanha. Passei muito perrengue, mas foi o meu “intensivão”.
Como todo mundo sabe, Valderico foi eleito e eu, marcando duro para ninguém se esquecer da promessa feita na campanha, fui integrada à equipe da Assessoria de Comunicação Social. Conheci muita gente boa: Antônio Lopes (que havia trabalhado com meu tio Manoel), Ricardo Ribeiro, Davidson Samuel, o saudoso Paulo Pinheiro, Sabrina de Branco, Everaldo Benedito.
Passei dois meses tentando virar jornalista. Todas as vezes que pegavam minhas matérias para revisar, eu ficava espiando por cima do ombro do povo, aprendendo a não repetir os erros. Aí Solon me convocou para fazer a edição do Agenda Ilhéus, programa de rádio oficial da Prefeitura. Bateu um medinho, mas não tinha como recusar. Com ele, aprendi a fazer um programa de rádio “chapa branca” com cara de informativo. Fui pegando o ritmo da coisa e terminei fazendo a redação, produção e até entrevistas (cortando sempre minha voz de menino de 10 anos).
Assim como Valderico, o Agenda Ilhéus virou história. Apesar do período louco, foi uma escola de como enfrentar crises e utilizar a criatividade para vencê-las. Como sempre procurei fazer o meu trabalho, acabei aproveitada pela equipe de Newton Lima. Nos dois anos que seguiram, perdi as aulas de jornalismo com as revisões dos profissionais que são referência em qualidade, mas sempre estive atenta para as dicas do meu amigo Paulo Pinheiro.
Por indicação da amiga e colega Sabrina, assumi a Assessoria de Comunicação da Casa dos Artistas de Ilhéus, lugar que não frequentava por pura ignorância minha. Através da convivência com os profissionais que vivem de semear a arte entre o povo, ganhei mais experiência e fiz amigos maravilhosos. As matérias sobre os espetáculos, projetos, intervenções desafiavam constantemente minha criatividade.
Certo dia, recebi uma ligação de Gilvan Rodrigues, elogiando os meus textos, sempre identificados com KV no cabeçalho das laudas. Ele me convidou para trabalhar na campanha de Antônio de Anízio, candidato a prefeito de Itacaré. Eu faria o texto dos programas de rádio e as matérias por dois meses. Com a maioria esmagadora dos votos, Tonho foi eleito e fez questão de me convocar para integrar a equipe dele. E, é nela que estou no momento.
Então, como minha breve biografia profissional, de como pensava ser veterinária e acabei virando repórter (jornalista tem ar pedante, segundo Gilvan), está sendo assim. Antes da decisão dos juízes, tomada há alguns dias, não fui impedida de exercer minha profissão, a qual não escolhi, mas fui absorvida por vocação. Nunca vou me achar boa o suficiente. Gosto do que faço e procuro fazer melhor a cada dia. Sempre aprendendo com quem tem a ensinar e respeitando os verdadeiros profissionais. Sejam eles diplomados ou não, são os melhores professores.


