Eu tinha três ovos minúsculos. Apesar de não me orgulhar deles, era melhor que nada. Eles vinham numa maleta transparente, acompanhados por uma caneta Bic que não funcionava nem sob reza braba. A maleta ainda era fechada com grampeador (ah, as normas de segurança dos anos 1980! Existia Inmetro?). Além de ficar desapontada com a péssima qualidade do “mimo”, corria o risco de ganhar uma espetada ou, quem sabe, até um grampo atravessando o dedo. Esse foi o meu presente de Páscoa de boa parte da minha infância.
Os ovinhos de chocolate eram horríveis. Acho que a Garoto fazia com os restos do Batom, pois o gosto era medonho. Mas aquelas coisinhas chochas, ocas, sem graça e que colocavam minha integridade física em risco tinham que cumprir o papel de me alegrar na Páscoa. Aliás, no domingo pascal já tinham virado lenda, pois meus pais sempre me davam a maletinha de ovos antes. E alguém já ouviu falar de alguma criança humana de três a sete anos com autocontrole? Só se for algum andróide, extraterrestre ou alma penada.
Eu suplicava por um ovo de chocolate descente. Porém, meus preocupados genitores tinham o argumento pronto:
- Você não agüenta comer um ovo inteiro. Vai passar mal.
Puxa vida! Parecia que eu tinha que comer o ovo de chocolate em uma sentada só. Tipo aqueles prêmios insanos que você tem que devorar sozinho duas pizzas grandes e ganha outra de brinde. É como se o chocolate tivesse prazo de validade até o domingo. No dia em que Jesus ressuscitava, todos os ovos de chocolate da face da Terra eram arrebatados? Qual é?
Confesso que eu invejava quem recebia ovos de chocolate de verdade, cujo tamanho é definido por números. Se eu desejava um ovo 15, acho que juntando os meus três relentos não fazia nem 0,5! Como eu não tinha noção de preço, pensava que meus pais iriam à falência se gastasse alguns cruzeiros a mais para satisfazer meu pedido. Iria faltar pão em nossas mesas por causa do meu consumismo. Era uma relação de usura e ódio. Morria de raiva daqueles ovinhos ordinários, dentro daquela maletinha vagabunda, acompanhados por aquela caneta inútil, todavia não abria mão daquela desgraça.
Certa Páscoa, eu fui obrigada a exercitar ainda mais o meu desapego material. Fui passar a Semana Santa na casa da minha tia, em Valença. Adorava ficar solta na rua, correndo na pracinha, catando sementes, subindo em árvores... Meus dois primos tinham quase a minha idade e eram meus companheiros das melhores brincadeiras e brigas. Tudo a gente tinha que fazer junto e igual para não dar confusão. Só que confusão maior foi quando mostrei, antecipadamente, minha maletinha de ovos sem vergonha.
- Eu quero um ovo – solicitou abertamente um dos meus primos.
- Eu também quero – reiterou o pedido do irmão.
Eu arregalei meus olhos e estampei na cara logo uma expressão clara de negação. Puxa vida, eu só tinha aquelas porcarias e ainda precisava dividir?
- Karol, são três ovos, dá um para cada. Deixe de ser egoísta e divida com seus primos. Eles estão nos recebendo tão bem na casa deles – coagiu-me a minha mãezinha.
Eu relutei, choraminguei, fiz biquinho, mas não teve jeito. Acuada pelos olhares pidões dos meus primos e o olhar ameaçador da minha mãe, cedi. Fiquei com aquele ovinho embalado em papel alumínio vermelho, que sempre se rasgava ao ser descascado.
- Olha, a situação não é tão ruim. Você ainda ficou com a maleta e a caneta – consolou-me meu pai.
Acho que se fosse hoje, eu mandava pegar a maleta e a caneta, fazer um rolo e enfiar em um lugar bem inapropriado. Muito animador, evoluí espiritualmente tendo a minha individualidade violentada. Pior foi quando, no domingo de manhã, meus primos ostentavam seus ovos de chocolate tamanho 20. Um para cada um. E eu não fazia parte desse “cada um”. Só não chorei porque devo ter ficado com a cabeça tão quente que as lágrimas evaporaram.
- Vai ficar chateada por causa de chocolate? Que bestagem! – desdenhou minha mãe.
O problema para as outras Páscoas foi resolvido. Passei a ter horror a ovos de chocolate.

1 comentários:
Tadinha! Fiquei com pena... mas discordo que os ovinhos relentos eram feitos "com restos de baton"! Baton é dos meus chocolates preferidos, só perde pro meio-amargo e pro diamante negro!
Mas sua tia, hein? Custava comprar um ovo 20 pra você também??? Ô falta de percepção, Senhor!!!
Meus meninos NUNCA tiveram OVO de páscoa. Eu comprava barras de chocolate, segundo a preferência de cada um, o chocolate dos ovos em geral não é gostoso. E eu nunca comi um dos grandões atualmente, pra saber se são gostosos. Continuo com as barras. Ah, no momento até sem as barras, por conta da dieta. Bléh!
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