Acho tão bonitinha essa expressão “feito um passarinho”. Deixa qualquer coisa mais suave, até mesmo fofinha. Tem gente que dorme feito um passarinho, com sono curto e leve. Ser livre feito um passarinho, voar para onde e quando quiser, sem nada que impeça a vontade. Tem quem morre como um passarinho. Não a pedradas, mas de maneira sutil, natural. Tem quem come feito um passarinho. Quase nada, menos até do que o moderado. Eu já comi feito um passarinho, mas não nesses moldes. Vou explicar nas linhas seguintes.
Minha filha está com quase um ano e já se locomove por conta própria. Engatinhando pela casa, preenche o ambiente com o guinchado de seus pés arrastando no piso de cerâmica. E a hora de comer ganhou alguns complicadores. Quando ela está disposta a comer é uma maravilha. Acaba com o conteúdo do prato numa sequência ininterrupta. Mas quando a pequenininha quer bagunçar, é uma farra. Nos momentos de perseguição pela sala, ela come, ri, vira a cara, cospe, bate a mão e foge. Uma graça até a quarta vez que faz a mesma presepada. Porém essa bagunça vai acabar assim que a cadeirinha de comer chegar. Com certeza a baderna ganhará outra cara.
Esse processo de dar comida à minha filhotinha me lembrou um episódio da minha infância. Graças a Deus eu não me recordo da bagaceira. Só conheço a história por minha mãe me contar. Eu era ruim de boca, só queria saber de peito. Até para beber água dava trabalho. Isso tudo acabou depois que minha mãe arrumou uma babá. Não era uma Mary Poppins, mas conseguia fazer mágica. Como eu morava num sítio, ela me botava no colo e saía passeando comigo com o pratinho, que voltava vazio depois de algumas voltas entre as árvores.
O único defeito de Rita, a babá maravilhosa, é que sempre arrumava encrenca com a moça que ajudava minha mãe na arrumação da casa. Sereia era meio descompensada do juízo, mas sempre se mostrou um doce. Nunca me deixavam sozinha com ela, mesmo ela demonstrando muita afeição por mim. Uma vez me deu uma boneca. Contam que ela trouxe meio com vergonha por ser simples demais.
- É para a menininha - ofertou com carinho.
Sei que os quebra-paus entre a faxineira e a babá eram tantos que minha mãe precisou escolher entre as duas. Ganhou aquela que demonstrava maior equilíbrio emocional.
- Pode me dar umas três surras por dia. Uma de manhã, uma de tarde e outra de noite. Mas não me manda embora, por favor! – suplicou, inutilmente, Sereia.
Rita continuou cuidando de mim, com zelo e conseguindo a façanha de que eu comesse sempre. Eu ganhei mais peso, fiquei com a pança mais cheinha. Todavia, a babá mágica foi perdendo seu encanto e um dia foi embora. Minha mãe encontrou uma conhecida e relatou que tinha perdido a moça prestativa que cuidava de mim. Mas a reação da amiga foi de deixar qualquer um abismado.
- Que perigo vocês correram! Essa moça tem problemas psiquiátricos. Tem crises violentas e já colocou fogo até na própria casa. Graças a Deus que não tiveram problemas.
Minha mãe respirou aliviada e foi contar a minha avó a descoberta sinistra.
- Não é que a doida de verdade era a outra? Como eu iria imaginar?
- Ih, Gau, então o que Sereia contou era verdade e eu achando que era invenção.
- O que mãe? O que Sereia disse que Rita fez com Karol?
Imagino que nesses segundos de tensão, o coração de minha mãe deve ter se exprimido até ficar do tamanho de uma azeitona.
- Sereia contou que viu Rita mastigando a comida e dando a Karol, quando ela saía pelo sítio – revelou minha avó.
E assim o truque da babá foi revelado. Sem a cenicidade do Mister M, mas causando igual surpresa e espanto.
Ainda me embrulha o estômago e causa arrepios ao saber que eu um dia comi, literalmente, feito um passarinho.

4 comentários:
Hum... agora sei porque seus beijos são tão saborosos...rs.
Esse texto ficou bem legal!
Esses comentários do blogspot são doidos. O anônimo aí sou eu!
Te amo!
Então o "problema" da menina era PREGUIÇA DE MASTIGAR!!! (Me recuso a aceitar que essa menina era vc! Eca!!!) kkkkkkkk
Arghhhhhhhh
Nojento isso!
kkkkkkkk
By: Valéria Victal
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