domingo, 19 de junho de 2011

O gato comeu

Sempre me questionei se há diferença entre sentir culpa ou remorso. Apesar de parecerem sinônimos, penso que o segundo sentimento é o mais pesado, sendo provocado pelo primeiro. Mas o indubitável é que sentir qualquer um dos dois é terrível, um martírio o qual a consciência faz o papel de carrasco cruel digno de servir ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. 

Na dúvida entre as definições dos sentimentos, procurei o dicionário. Usei o online mesmo, pois estava sem ânimo para fuçar a estante empoeirada e buscar o velho Aurélio, montado ao longo da compra de várias edições da Folha de São Paulo. E também é mais fácil de copiar e colar, né? (Ah! Estou há mais de um ano sem dormir. A preguiça é mais que justificável!) 

Culpa: s.f. Ato ou omissão repreensível ou criminosa; falta voluntária, delito, crime. 
Remorso: s.m. Reprovação da consciência que sente haver cometido uma falta. 

Ler esses significados ajudou a clarear minha mente e reforçou a ideia que eu já tinha sobre ambos. Sentir culpa é saber que você fez merda. Já o remorso é se atormentar pela merda feita. A culpa nem sempre provoca arrependimento, mas o remorso é mais que se arrepender, é uma auto-condenação. 

Único momento em que fui santa
Eu reconheço minha culpa por vários “delitos” e não me arrependo nem um tiquinho de algumas maldades. Exemplos: injetar pimenta em bubbaloo, jogar barata morta em amiga tomando banho, pôr cobra de borracha na cadeira da professora, passar escova de dente do ex-padrasto na privada, colocar laxante no leite do mesmo ex-padrasto (dá pra notar que não tínhamos uma boa relação), e por aí vai. Nada que seja caso de polícia. Bem, só se as duas infelizes que eu dei umas boas muquetas tivessem dado queixa. Mas nunca fiz nada que machucasse alguém seriamente (bem, eu nunca mais falei com as infelizes após os catiripapos). Só que nunca passei a imagem que sou alguma santa. Apenas quando desfilei vestida de santa Rita pela Escolinha que estudei aos três anos.

Já remorso, eu sofro muito quando me lembro de algumas injustiças que cometi (ok, as infelizes que apanharam de mim devem se sentir injustiçadas, mas estão no meu rol de culpa, beleza?). Há uns 18 anos, conheci menininha que dizia ter cinco anos e freqüentava a casa de minha avó, no Rombudo, em Ilhéus. O nome dela era Arlete, mas chamavam de Bucho, pois tinha a barriga bem grande. A mãe enlouqueceu, abandonou-a junto com seus três irmãos. Seu pai era alcoólatra e sempre mijava nos únicos colchão e lençol que dividia com os filhos. Ela morou uns tempos lá em casa, mas como eu era muito mimada, não aprendi a compartilhar o amor e atenção de minha mãe. Sinto-me uma canalha, mesmo sabendo que não dá para exigir muita maturidade de uma criança de 10 anos. Choro até hoje ao pensar em tudo o que ela poderia ter deixado de sofrer se continuasse conosco.

Mas não posso continuar me condenando pela história de alguém que nem sei o desfecho. Parece um pouco com o caso que minha mãe viveu e se condena até hoje. Quando ela era menina, criava um gatão preto bem bonito. Chamava tanta atenção que muitas pessoas  desejavam comprá-lo. Inclusive o dono de um circo. Todavia, o bichano não seria adquirido como atração de picadeiro, e sim para virar ingrediente de mandinga para curar a tuberculose do filho do cara. 

Pois, junto com o gato preto, na casa também tinha um pássaro preto, que cantava lindamente em sua clausura. Diz minha mãe que, um dia, sentiu dó da pobre ave e resolveu dar-lhe a liberdade. Só depois de abrir a gaiola é que se deu conta de que meu avô tiraria o couro dela ao saber de sua ação generosa. Para se livrar da culpa, deixou a gaiola no chão, como se tivesse sido derrubada. Quando meu avô chegou da rua, viu o cenário do crime e tomou a atitude pelo o que presumiu.

Nunca mais ninguém soube do gato.

2 comentários:

Bel disse...

Rapaz, quanto hiperlink... eu viajei, aqui, pra te acompanhar. E também pelas minhas culpas e remorsos. Sabe que remorso não tenho quase nenhum?

Bjooo, adorei ter falado com vc hj!

Anônimo disse...

Fiquei super feliz em nao me ver inclusa no seu rol de "maldades" acho que vc gosta mesmo de mim rs. Coitada de buxo, e pensar que fui cúmplice em muitas dessas peripécias. Beijo prima, recordar é viver! Adorei o post!
Valéria Victal