Nesse clima de final de ano, com a programação televisiva em clima de alegria e confraternização, eu fico me sentindo ainda pior nesse meu exílio, nesse deserto cujas temperaturas mínimas (isso mesmo, mínimas), ficam em torno de 27°. Não sou ligada aos rituais da época, não vejo muito sentido. Mas sou a favor de estar com pessoas que amo, tendo muitas conversas, risadas e comilanças. Não sinto falta das ceias de Natal ao Ano Novo. Sinto falta de estar com a minha gente que ama e compreende o meu jeito bobo.
No último dia 24, minha mãe ainda tentou fazer uma ceia para “não passar em branco”, como disse ela. Teve arroz com legumes, farofa com passas (que eu catei uma a uma), um chester tão macio que a carne soltava dos ossos e, de sobremesa, um pudim de cremosidade perfeita. Apesar de todo carinho com que minha mãe temperou a comida, não passou de uma refeição gostosa. Sem desmerecer as companhias dela, do meu marido e da minha filha, mas senti falta de mais gente para comentar a refeição, tirar onda com a cara do outro, contar histórias, compartilhar sonhos... Mesmo assim, essa simples ceia nem de longe superou a mais surreal que já participei.
Era dezembro de 2003. Valderico Reis, prefeito cassado de Ilhéus que acabou sendo cassado, estava em plena campanha de sua pré-candidatura. Eu estava me formando em Rádio e TV pela UESC. Valderico era dono de uma das principais rádios da região, a Gabriela FM. E o ex-marido de minha mãe era um dos babões que o acompanhavam para cima e para baixo atrás de alguma migalha. Minha mãe quis me dar uma forcinha no meu primeiro emprego e perguntou a Valderico se eu podia ficar acompanhando o dia a dia da rádio, sem compromisso. Ele não viu problema algum e eu comecei a estagiar com um locutor, Bonnie. Ajudava ele com os textos dos flashes, dava palpite na escolha das músicas... Ele era gente boa demais e, apesar de sua fama de cafajeste, sempre me respeitou enquanto mulher e profissional.
Na rádio, passei a conviver com Valderico e sua família de perto. Sempre me trataram muito bem. Ele fez um mandato desastroso, mas não posso dizer que tenham me tratado mal. Pelo contrário! Dona Fátima, a ex-mulher dele, sempre foi um amor comigo. As filhas e o filho também me tratavam com polidez. Aí não lembro direito como foi, mas sei que estava convidada para a ceia de Natal da família Reis. Acho que ele convidou o babão ex-marido de minha mãe e ela acabou em chamando e, depois, dona Fátima também reforçou o convite.
Na minha gulodice, a única coisa que pensei foi na comida. Se o peru era tão grande que mandaram assar numa padaria, imaginava o resto. Para não me sentir ainda mais deslocada, chamei meu noivo Felipe (hoje meu marido). A festa foi ao redor da piscina. Tudo decorado com laços, guirlandas, árvore de Natal e muita comida. Os bajuladores de Valderico chegaram aos poucos e, no final, fizeram-se poucos mesmo. Eu lá, sentada, sentindo uma mistura de espanto e vergonha, aos poucos tomava pé da situação em que me encontrava:
- Felipe, a gente tá na casa de Valderico. Que doideira!
- E sabe o que é ainda mais doido: passando o Natal com ele!
De repente, Valderico surgiu de chinelos e vestindo um bermudão. Suas pernas eram tão brancas que parecia estar usando meias lavadas com Omo, água sanitária e anil. Ele chegou brincando:
- Porra, porra! Olha a bermuda de boiola de meu filho!
Não teve como deixar de rir da cena. Então, ele veio à nossa mesa.
- Minha linda (ele nunca aprendeu meu nome), Luciana gostou muito de você. Quer que você trabalhe com a gente na rádio. Mas você não é sapatão, não, né? – e com tapinhas no meu ombro, complementou com: É brincadeira, é brincadeira!
Depois de conversar com os bajuladores e ouvir as últimas fofocas do dia, Valderico sentou-se, ficou olhando para o infinito e cochilou onde estava, sentado em um canto da festa.
E, mesmo com todo o luxo do ambiente, não havia 10% do amor que encontrei na minha última ceia. Porém, com certeza, vai demorar milênios para eu ter uma ceia de Natal tão surreal quanto a de 2003.

2 comentários:
Menina, eu nem imaginaria que você tivesse frequentado a casa de Valderico!!! kkkkkkk Não deu pra deixar de rir da situação toda!!!
Nessa vida de jornalista também tive cada coisa surreal. Mas a pior de todas foi o garçom me oferecer champanhe e eu entender que ele me oferecia um abraço e tascar um abraço nele em pleno revellion de 1999, em Juazeiro, porque estava trabalhando num clube menos de um mês de estar na cidade e não conhecer ninguém. foi hilário depois, na hora foi reconfortante. fiquei dois anos em Jua e super amiga do garçom.
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